Mais um feminicídio: a complacência do Judiciário com assassinos de mulheres. Por Nathalí Macedo

Tauane Morais, morta pelo ex Vinícius Rodrigues de Sousa

 

Todos os dias, 12 mulheres são vítimas de feminicídio e 135 de estupro no Brasil.

Ontem Tauane Morais entrou para essa terrível estatística. Foi morta a facadas pelo ex-namorado Vinícius Rodrigues de Sousa, que já apresentava histórico de agressividade.

No último domingo, Vinicius fora preso em flagrante após agredir Tauane com socos e tentar enforcá-la na frente dos filhos do casal, de dois e quatro anos. A vítima contou à polícia que o ex-namorado chegou a pegar um punhal e rasgar as cortinas da casa.

Mesmo assim, ele foi liberado no dia seguinte em uma audiência de custódia (quando se trata de violentar mulheres, a justiça brasileira consegue ser eficiente).

Para fazer justiça com seus algozes, nem tanto: dos 33 estupradores do estupro coletivo em uma favela no Rio de Janeiro, por exemplo, – como esquecer? -, só quatro foram presos até agora.

Por que nosso judiciário é tão brando com agressores em um país em que uma a cada três mulheres é vítima de violência?

Nossa cultura social colabora. O número de denúncias de violência durante o carnaval, por exemplo, aumentou 87,93% no Brasil em relação ao mesmo período do ano passado.

Por aqui, mulheres vítimas de estupro são responsabilizadas e vítimas de violência são desacreditadas pelo Judiciário, pela mídia e pela sociedade civil.

Na nossa cultura, é comum, por exemplo, culpar mulheres por crimes cometidos por homens contra mulheres.

“Por que você usava uma saia tão curta?” ou “Homens estupram seus enteados porque as mulheres não podem ver um macho que já colocam dentro de casa!” – como disseram os famigerados comentaristas do G1 diante da notícia de mais um pedófilo que estuprava os enteados e filmava tudo. A mentalidade do brasileiro médio ainda está, enfim, muito longe de ser minimamente gentil com suas mulheres.

Crimes como este que vitimou Tauane (que acontecem todos os dias, ao menos doze vezes), ainda são chamados de “crimes passionais”, e só para crimes contra mulheres circula na mídia, quase sempre, a motivação: “Ele não se conformava com o término”.

Essa ressalva, por si só, me soa complacente.

Isso não é sobre “estar inconformado com o término”, não é como um descontrole justificável, é sobre um sentimento de posse autorizado culturalmente a todos os homens, como já sabemos, e pelo quão precariamente homens lidam com sua masculinidade em uma sociedade tão machista.

Além de perdoarmos socialmente nossos agressores, temos um judiciário que nos violenta institucionalmente (não só por omissão, como é o caso, mas também diretamente, através de leis nocivas, como a que pune o aborto).

Acaso nosso judiciário fosse menos complacente com agressores de mulheres, criminosos como Vinícius não seriam liberados em audiências de custódia.

Se nosso judiciário não fosse tão machista, não existiria Gilmar Mendes e o médico estuprador de mulheres ainda estaria preso, e mulheres como Tauane receberiam proteção adequada (e não uma medida protetiva a que a justiça não procura conferir aplicabilidade prática) para não entrarem para as estatísticas tão preocupantes de feminicídio no Brasil.

Essas estatísticas continuarão a crescer vertiginosamente como têm crescido até que as mulheres decidam, enfim, tomar as ruas, como fizeram as irlandesas e as chilenas. Que venha o colapso.

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