Lula no país dos impolutos. Por Donato

Manifestoche feliz com o fim da corrupção no universo

A comitiva de carros pretos levando Lula para a sede da Polícia Federal passou a uma quadra de minha casa. Foi lamentável ver a horda de vizinhos correndo até a avenida para vibrar com a prisão.

“Vagabundo”, gritou um cidadão que, desde que me entendo por gente, passa as tardes na calçada tomando cerveja. “Até que enfim prenderam o cara”, dizia outro já no retorno para casa.

Há não muito tempo, ‘o cara’ foi o termo usado por Barack Obama ao se referir a Lula.

Mas hoje, uma gigantesca multidão reage em conformidade com o discurso padronizado e martelado nos últimos anos pela turma de Sergio Moro, Deltan Dallagnol e conglomerados jornalísticos milionários. O de que Lula era ‘o chefe da quadrilha’.

Como se a horrenda doença da corrupção tivesse sido desenvolvida e disseminada pelo ex-sindicalista, os honestos brasileiros, aquele povo que é incapaz de burlar o Detran para recuperar a CNH cassada por excesso de multas, vibravam como se aquele cortejo transportasse o maior criminoso de todos os tempos, o inimigo número da raça humana.

É bem verdade que o erro de Lula e do PT foi o de dar continuidade ao ‘mecanismo’ que vem desde Dom João VI, porém não existe político como ele em termos de capacidade para aglutinar tendências e partidos antagônicos, ricos e pobres, corintianos e palmeirenses.

Até a repisada acusação de medíocres insossos como Geraldo Alckmin et caterva, a de que Lula ‘dividiu o país’, incutiu o ‘nós contra eles’ é falsa. Lula é aparador de arestas.

Nas duas gestões do petista o país avançou como nunca. Seja em termos econômicos, seja de diminuição de desigualdade, de aumento de escolaridade, de redução da fome, de projeção internacional. O mundo passou a considerar que o Brasil havia subido vários degraus em direção aos países desenvolvidos. Lula era ‘o cara’.

Se pobres passaram a andar de avião e ingressaram na faculdade, ricos também mantiveram seus pornográficos índices de lucratividade.

Nenhum deles saiu às ruas durante aqueles oito anos batendo panela e carregando bonecos infláveis com a imagem do presidente em trajes de presidiário. Lula era diferente? Os verde-amarelos pensavam de modo diferente?

Lula não foi absolutamente diferente em nada na maneira corriqueira de ‘fazer as coisas acontecerem’. Não é essa cultura difundida? Se você é jovem e pensa em trabalhar em uma empresa média ou grande, prepare-se para fazer muita política durante a vida se deseja avançar na carreira. E saiba, desde já, que a corrupção corre solta no ambiente das empresas privadas.

Não se surpreenda, portanto, se ao ficar velho, você estiver repetindo o mantra que escuta hoje de seu pai: “Bom, esse é o esquema, não dá para remar contra a maré. O pão está aí na mesa, não está?”.

A maior característica de Lula é exatamente aquela que todo pai de família da classe média costuma se gabar de ser portador. ‘Esperto’, ‘conhece o caminho das pedras’, comete uns deslizes unicamente ‘pensando na família’. O ex-presidente nunca foi um radical, nunca pregou que a classe operária pegasse em armas contra as elites.

A família dele é o povo como um todo – ricos e pobres – e foi com esse sentimento que atuou, atendendo a todos os segmentos. Sim, errou, não deveria ter se utilizado do modus operandi dos ricos. Entretanto, ao sucumbir à tentação, Lula transformou-se num paradoxo, o que o torna ainda mais humano.

Se sua prisão irá decretar o fim de sua vida política, ainda saberemos. A única certeza é que ela não terá sido determinante para hoje sermos um país diferente, afinal, meu vizinho continua na calçada.

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