Lula e FHC falaram no rádio: um deles mostrou por que está condenado, e não é Lula. Por Joaquim de Carvalho

Lula e Fernando Henrique deram entrevista quase na mesma hora: um não ouvia o outro, mas parecia que estavam debatendo

Quase ao mesmo tempo, nesta terça-feira, enquanto Lula dava entrevista para a Radiojornal, de Pernambuco, Fernando Henrique Cardoso falava com a Jovem Pan.

Quanta diferença na visão dos dois em relação ao Brasil.

Em grande parte da sua entrevista, Fernando Henrique falou sobre… Lula.

E Lula, além de responder a perguntas sobre si, falou do País.

“Eu tenho consciência de que eu posso, com a ajuda do povo brasileiro, consertar outra vez este País. Fazer este Pais voltar a crescer, gerar renda, gerar emprego, gerar salário, e não jogar a culpa da desgraça do Brasil em cima da legislação trabalhista e dos aposentados”, disse Lula.

Enquanto isso, em uma sala, diante de três entrevistadores do Jovem da Manhã, da Jovem Pan, Fernando Henrique Cardoso dizia:

“Pelo que ouvi dos desembargadores do TRF4, não li o processo, mas está lá. Tem bastante elementos. Isso é contra a lei. Nessa hora, não sou advogado, um juiz pode errar, mas não foi um, foi um mais três. Foram quatro juízes. Não há segmento da sociedade política brasileira que queira condenar. É rebelião de juízes? É pouco provável. Mas eu lamento, porque fica uma marca negativa na história. É ruim, tomara não tivesse sido, mas são tantas evidências. Vai fazer o quê? Tapar os olhos? Tapar sol com a peneira?”

Nenhum entrevistador fez a pergunta óbvia:

“Que evidências, presidente Fernando Henrique Cardoso?”

Já na Radiojornal, para o microfone de Geraldo Freire, Lula afirmava:

“O crime que eu cometi neste País foi fazer com que as pessoas do andar de baixo subisse mais um degrau na escala de conquista social. Esse foi o grande crime que tem muita gente que não aceita”.

Embora não estivessem se ouvindo, os dois debatiam, cada qual falando para uma parte do País, dividido não entre Fernando Henrique e Lula, mas entre os que gostam de Lula e os que não gostam, com a linha divisória marcada pelo preconceito.

Fernando Henrique dava curso a um movimento de bastidor que parece querer encontrar uma saída para a crise política: livra-se Lula da prisão, mas se impede que seja candidato outra vez.

O ex-presidente tucano admitiu que o Supremo Tribunal Federal pode mudar a interpretação da prisão em segunda instância. “Ainda assim a lei da Ficha Limpa está aí”, ponderou. “Neste momento, não pode ser candidato”, acrescentou.

Lula respondia, como se estivesse ouvindo o adversário:

“Eu acho que vou ser candidato, porque a verdade vai prevalecer. Eu tenho certeza, eu tenho fé, de que a verdade vai vir à tona. E aqueles que me acusaram injustamente deveriam ser demitidos a bem do serviço público, porque uma pessoa não pode receber 30 mil reais, receber auxílio-moradia e fazer uma campanha de mentiras contra um cidadão brasileiro”.

Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, defendia o Judiciário:

“Vai fazer o quê? A lei é a lei”.

Sergio Moro condenou Lula mesmo sem apresentar prova de que o triplex pertence ao ex-presidente, e o TRF-4 confirmou a sentença.

A sentença foi criticada por mais de 100 juristas brasileiros, por falta de consistência, e o TRF-4 julgou Lula em tempo recorde, com um resultado que foge ao padrão da corte e do Judiciário de uma forma geral.

Além do tempo recorde, os magistrados não divergiram quanto ao tempo da sentença: 12 anos e 1 mês, o que dificulta a apresentação de recursos.

Tudo parece ter sido feito sob medida para que Lula seja condenado rapidamente, e não possa se candidatar a presidente.

Tirar Lula da disputa, como parece ser o propósito do Judiciário, não prejudica apenas Lula.

Atinge a credibilidade do próprio Judiciário e impede os eleitores de escolherem livremente seu candidato.

Um candidato cuja condenação é, para dizer o mínimo, controversa.

O que vai acontecer com Lula?

Muito difícil arriscar um prognóstico.

Se depender de uma parte do Brasil, sobe a rampa do Planalto para um terceiro mandato.

Se depender de outra parte, esta que Fernando Henrique representa, vai para a prisão.

Pelo que Lula disse na entrevista, só um cenário deve ser descartado: o da sua fuga.

“A palavra fugir não existe na minha vida. Eu sou cidadão brasileiro, tenho orgulho de ser brasileiro, escapei da fome até 5 anos de idade, porque nordestino que nasce em Caetés, na miséria em que eu nasci, a chance de sobreviver é muito difícil, e eu sobrevivi. Eu vou encarar qualquer situação de cabeça erguida.”

Enquanto isso, na Pan, sem ser confrontado, Fernando Henrique Cardoso dizia que não existe corrupção no governo de Geraldo Alckmin, no Estado de São Paulo.

Dois presidentes, um deles condenado. Pela história. E não é Lula.

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