José Reis, um herói não cantado da Folha

Um talento extraordinário injustamente esquecido: José Reis

As empresas jornalísticas brasileiras deveriam cuidar melhor de suas memórias. No mundo perfeito, todo jovem jornalista ingressaria numa empresa com o conhecimento essencial das pessoas que a fizeram ser o que ela é.

Não me refiro, é claro, a um tipo de trabalho que enaltece apenas os donos.

As luzes precisam ir além dos proprietários e se fixar nos jornalistas que não raro entregaram sua saúde em nome de uma causa – a justiça, um  mundo melhor – em troco de remunerações quase sempre menores do que eles mereceram.

Pergunte a qualquer jovem repórter da Folha, por exemplo, sobre José Reis. Provavelmente ele não terá a menor idéia.

E no entanto José Reis foi um inovador, um misto de cientista e jornalista sem o qual a Folha de S. Paulo não seria o que é. Você vê colunistas como Clóvis Rossi promoverem a bajulação póstuma de Octávio Frias. Mas um silêncio injuto pesa sobre Reis.

Reis foi o primeiro diretor de redação depois que Frias comprou o jornal de Nabantino Ramos, que ficou decepcionado com a decisão de seus jornalistas de fazer greve em 1961.

Reis, voz pausada, cabelos brancos, óculos pretos, assumiu o cargo já maduro, com 54 anos. Tinha uma trajetória primorosa na divulgação científica, em que foi um pioneiro no Brasil. Achava que os jovens deveriam entrar em contato com a ciência e de maneira divertida. Era um crítico da educação científica da época, cheia de fórmulas.

Como cientista, Reis foi um dos fundadores da SBPC, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que se tornaria um dos focos de resistência democrática à ditadura militar. Como jornalista, promoveu incansavelmente a ciência, fosse com concursos para jovens cientistas, fosse com feiras nas escolas às quais ele não raro comparecia.

Era uma causa, era uma bandeira dele e da Folha.

Reis encontrou, na equipe, um jornalista 20 anos mais moço, mas que pela inteligência madura parecia “20 anos mais jovem”, como ele recordaria depois num obituário  memorável.

Era meu pai, Emir Macedo Nogueira, que fora encostado por Nabantino depois de ter tomado a decisão mais dura de sua carreira – a greve de 1961. Nabantino via em meu pai, como Reis, um jovem jornalista excepcional, alguém que misturava integridade, caráter e uma capacidade excepcional de distinguir a manchete de uma nota que parecia ser grande sem ser. Nabantino congelou meu pai. Provavelmente o tivesse demitido, se não houvesse estabilidade naquele tempo pré FGTS. (A reconciliação com Nabantino, anos depois, seria saudada com alegria entusiasmada por papai. Ele teve um vínculo intelectual e humanista com Nabantino que jamais se reproduziria com Frias, a quem no entanto respeitava como um capitalista sagaz. A decisão de fazer a greve de 1978 seria bem menos complexa emocionalmente para meu pai, por isso.)

Reis puxou meu pai, “uma criatura fora do comum”, para seu lado. Os dois comandaram um jornal num período crítico, em que os militares impuseram censura e ameaças. Só quem trabalha nestas circunstâncias sabe o quanto é desafiador ser jornalista sob uma ditadura.

Você pode desaparecer, simplesmente.

Um dos momentos épicos da Folha foi um par de editoriais que analisavam uma tentativa de minar João Goulart depois da renúncia de Jânio Quadros. Goulart, o Jango, era suspeito de ser esquerdista. A direita queria dar um golpe branco e criar um parlamentarismo que tirasse sua força como presidente.

Papai escreveu o editorial contra o golpe.

Internamente, o cenário era também complicado. Frias contratara Claudio Abramo para fazer uma crítica do jornal. Foi uma decisão dividida. Os chefes de redação da Folha eram cinco. Frias os consultou. Dois foram contra Claudio e dois a favor. Papai deu o voto de Minerva. A favor, como seria de esperar. Eram vizinhos de um bairro de jornalistas de São Paulo, a Previdência, onde nasci  e cresci.

Reis não poderia ser mais diferente de Claudio. Um tímido, reservado. O outro barulhento, extravagante. E só um editor sabe o quanto é áspero que alguém avalie o jornal depois de pronto. É injusto. O analista vê as coisas com a vantagem do tempo transcorrido.

Estava com os dias contados uma fase essencial para a ultrapassagem, anos depois, da Folha sobre a liderança centenária e cansada do Estadão.

Reis continuou na Folha, com uma coluna semanal de ciência. Nela, escreveria, em 1982, o artigo mais lindo entre tantos sobre a morte de meu pai, aos 55 anos. Estava arrasado, e tentou encontrar conforto na fé. “O céu devia estar em falta”, disse Reis, para que papai fosse chamado. Mesmo no ateu que eu já era, essas palavras tiveram o poder de mitigar a maior dor de minha vida.

Não sei dizer quantas vezes o li, reli e tresli. Declamou trechos inteiros, que me ficaram na memória.

O artigo de Reis chegou a mim como um abraço solidário e quente de um amigo numn dia gelado como poucos em sua vida. Trouxe luz em momentos em que me debati na escuridão. Eu esperava por ele, para swer franco. Abri a edição de domingo da Folha, na semana da morte de meu pai, e fui direto a Reis.

Nunca disse isso para ele, que morreria aos 94 anos, lúcido a ativo.

Jamais o procurei para dizer o quanto fui grato por aquelas palavras que consolaram e alentaram.

Eis algo de que me arrependo, e que compenso — apenas parcialmente —  neste capítulo de meu livro dedicado a um gênio injustamente esquecido..

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