Jornalistas que adulam patrões. Por Paulo Nogueira

Rossi e a adulação do patrão
Rossi mudou, mas ele só vê mudança nas outros

Um artigo de Clóvis Rossi nesta semana foi muito comentado nas redes sociais. Nele, Rossi, nostálgico, evocava o Lula e o Dirceu dos primórdios.

Bem, acabava aí a nostalgia: Rossi logo os condenou por não terem continuado como eram naqueles dias românticos.

Um grande filósofo grego escreveu, para registrar a inevitabilidade da mudança, que até a água do rio que pisamos não é a mesma de um momento para o outro.

Mas Rossi cobrava de Lula e Dirceu que permanecessem iguais.

Por trás de tudo, Rossi insinuava ligações perigosas com construtoras. Como se fosse um juiz, condenava os dois.

Claro que julgava sem conhecer a natureza exata das ligações. Até o juiz Sérgio Moro, como se viu ontem num vídeo em que interpelou Dirceu, parece saber notavelmente pouco sobre o assunto.

Mas Rossi, do alto de sua desinformação alimentada pelo jornal em que trabalha, foi professoral e foi taxativo.

Rossi poderia fazer o mesmo exercício com ele mesmo. Quando ele se transformou em mais um colunista como tantos aí?

Em algum momento ele se perdeu. O marco da mudança, para mim, foi quando ele se pôs a elogiar entusiasmadamente o patrão, Octavio Frias, não o segundo e atual, mas o original.

Frias, segundo Rossi, era um grande repórter. Se me lembro, o melhor repórter da Folha. Se não era isso, era parecido.

Mas o que ele fizera para merecer tamanha distinção? Alguém contou a Frias que Tancredo tinha um tumor, e a informação foi parar na manchete da Folha.

Isso fora tudo.

Parece piada, mas é verdade. Um empresário como Frias recebe muitos telefonemas de gente bem posta e bem informada. Alguém lhe falou do tumor. Ponto.

Este o trabalho excepcional de Frias.

Elogiar o patrão não é recomendável. Você parece um adulador vil. Por isso, há que ter muita parcimônia. Está na cara que Clóvis Rossi não teve. (A alternativa seria falta de discernimento.)

Não é fácil transformar os donos das empresas jornalísticas brasileiras em heróis.

Nossos barões da mídia, como jornalistas, foram sempre de retumbante mediocridade. Nenhum deles se notabilizou pelo texto, ou pelas manchetes, ou por qualquer atividade ligada ao jornalismo em si.

Como empreendedores, sempre se valeram das muletas do Estado: privilégios como reserva de mercado e isenção de imposto para compra de papel, dinheiro copioso de publicidade e de financiamentos públicos.

Disse uma vez e repito aqui: até um macaco teria feito a Rede Globo com os favorecimentos que a ditadura militar deu a Roberto Marinho em troca de apoio. (“Sou o melhor amigo de vocês na imprensa”, disse ele a um ministro de Geisel quando foi lhe pedir mais um favor na forma de novas concessões.)

Os barões da imprensa ingleses e americanos não: eram, acima de tudo, jornalistas excepcionais, como foi o caso de Pulitzer. Mesmo o último deles, Rupert Murdoch, é, ele sim, um repórter como poucos – fora suas virtudes notáveis de empreendedor.

Quando você rompe a barreira de adular o patrão, o retorno é difícil. É o que demonstra a trajetória de Clóvis Rossi.

É um jornalista que mudou, e não para melhor – e que, em vez de se olhar no espelho, aponta o dedo para os outros, exatamente aqueles que seu patrão adora ver atacados.

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