Jornalistas mortos

Sidnei fez história no jornalismo econômico

Jornalistas vivem menos que os outros.

Ouvi isto de meu pai algumas vezes. A expectativa de vida nossa é menor que a média. Meu pai comprovaria a tese, lamentavelmente. Aos 55 anos estava morto.

Sempre lembro disso quando recebo notícias da morte de algum jornalista. Quase nunca a morte é aos 70, 80, 90 anos.

Nossa vida não é exatamente saudável. Os horários são ruins. Acabamos comendo mal. É fácil você beber e fumar porque quase todo mundo faz isso. Dormimos mal e pouco. Estamos sempre sob pressão. Temos horário para fechar e, além do mais, a possibilidade de sermos furados pela concorrência é uma fonte constante de tensão. Não bastasse tudo, você lê sua matéria publicada com medo de ter cometido um erro pavoroso.

Se você quer viver muito, é melhor evitar o jornalismo. Se mesmo assim decidir ser jornalista, faça seu testamento enquanto é tempo.

Tudo isso me ocorreu ontem quando soube, no espaço de poucas horas, da morte – antes dos 70 – de dois conhecidos jornalistas de São Paulo. Um deles era chamado de Toninho Boa Morte porque cuidava da seção de mortos do Estado de S. Paulo.

Ouvi falar muito dele, embora nunca o tenha visto pessoalmente. Corria nas redações a história de que quando lhe davam até amanhã ele respondia: “Se houver amanhã”. Tão marcante entre os jornalistas era Toninho Boa Morte que seu apelido era transferido para pessoas que gostavam de ligar para os outros para contar que alguém morrera. Nelson Blecher, por exemplo, foi várias vezes chamado de “Nelsinho Boa Morte”.

O segundo morto conheci pessoalmente, Sidnei Basile. Foi um dos jornalistas mais polidos que vi na vida. Sidnei substituiu JR Guzzo como diretor superintendente da Exame em 2000. Poucas coisas são piores, na carreira de um jornalista, do que substituir Guzzo. Ele deixa para trás um legado de excelência que é dificílimo de manter.

Sidnei sofreu ao pegar a Exame. Mas com extrema classe. Não lembro jamais de tê-lo visto gritar e nem de perder a compostura. Infelizmente não posso, como todos sabem, dizer o mesmo de mim.  Cheguei a ver seus parcos e bem penteados cabelos se desarrumarem em reuniões executivas de apresentação de resultados, mas nunca o vi sair do tom respeitoso mesmo em intensas tempestades.

O modo maneiroso de falar era típico de um “homem da Gazeta Mercantil” – a primeira grande escola de jornalismo econômico do país, uma referência nos anos 70 e 80. Os grandes jornalistas da Gazeta em seus anos dourados – Roberto Muller, Sidnei e Mário de Almeida, para ficar em três casos – não apenas pensavam do mesmo jeito como falavam com idênticos tiques. Era uma fala pausada, bem articulada e plena de palavras cultas, algumas delas já pouco usadas. Numa conversa razoavelmente informal, os “homens da Gazeta” poderiam usar o pronome “vossa”. Tinham tal presença, tanto prestígio que não ficavam ridículos ao falar de forma tão peculiar.

Poucas publicações viram uma escola, e a Gazeta virou. Sidnei Basile teve uma contribuição milionária nesse processo. É uma pena que não exista um livro que conte a saga da Gazeta Mercantil, e isso é testemunha da penúria bibliográfica nacional. Como a Gazeta, da qual foi um representante brilhante, Sidnei Basile fez história no jornalismo econômico brasileiro.

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