“Isso está sendo articulado há muito tempo”, diz o padre Júlio Lancelotti sobre as ameaças de morte. Por Donato

Padre Júlio Lancelotti

Não é de hoje, mas nas últimas semanas as costumeiras ofensas ao padre Júlio Lancellotti subiram alguns degraus e ganharam o patamar de ameaças graves.

Após mais uma ação truculenta de ‘higienização’ contra a população em situação de rua, padre Júlio manifestou sua indignação e então o que se viu foi uma onda de ataques violentos contra ele.

“Morte a esse padreco de merda, viado”, escreveu Roberto Giusti. “Manda pro inferno, ele e depois seus seguidores”, acrescentou João Severino que ganhou emojis de aplausos de Patrícia Allano. “Morte ao Padre Júlio” foi a ordem de um certo James Rodrigues.

Alguns são advogados, desenhistas industriais… A famosa classe média adepta do discurso ‘Tá com pena? Leva pra casa’. Após a repercussão, muitos deletaram seus perfis, porém as conversas e comentários já haviam sido salvos e os prints das postagens foram autenticados em cartório.

Agora uma representação assinada pelos advogados Juliana Costa Hashimoto, Valdenia Paulino, Ariel de Castro Alves, André Alcântara e mais 200 pessoas entre personalidades e entidades de defesa dos direitos humanos foi encaminhada ao Ministério Público para que providências sejam tomadas e que os autores sejam identificados e indiciados.

Padre Júlio concedeu uma entrevista ao DCM:

DCM – Como se chegou a esse ponto?

JL – Isso está sendo articulado há muito tempo, mas agudizou após a limpeza que eles fizeram no Parque da Mooca na sexta-feira, que foi feita com uso de força, com violência, tirando documentos, remédios, roupas e essas pessoas começaram a festejar que o parque havia voltado para as ‘pessoas de bem’. Eu sempre cobrei a forma como executam essas ações pois elas contrariam a portaria que estabelece como deve ser feito.

E há esses grupos fechados em redes sociais que sempre me atacaram – inclusive com a participação do subprefeito da regional da Sé e do coordenador de governo da regional da Mooca – afirmando que é meu desejo que essas pessoas vivam na rua, que eu recebo dinheiro por cabeça de pessoas que vivem na rua, e então agora vieram com essa carga forte de ataques.

DCM – O senhor postou um vídeo que da a entender que não apenas moradores da Mooca estariam fazendo as ameaças.

JL – Alguns irmãos vieram até a paróquia e me relataram que policiais tinham feito abordagem com uma pressão muito forte e dizendo para eles ‘Chama o padre que também vamos matar o padre e todos que estão juntos’.

DCM – Policiais?

JL – Eles estão articulados. Alguns policiais, alguns GCMs, funcionários da Inova (a empresa que faz a ‘limpeza’), funcionários das subprefeituras tanto da Sé como da Mooca, grupos de conselhos comunitários de segurança e esses grupos de redes sociais.

DCM – O senhor conhece essas pessoas?

JL – Sim, alguns já falam comigo há muito tempo. Aquele que disse ‘Morte ao padre Júlio’, é um advogado.

DCM – Qual sua expectativa com a representação junto ao MP?

JL – Espero que haja uma onda contra essa violência porque estamos entrando num nível de radicalismo em que perderam-se os limites. As pessoas desejam – e festejam!! – a morte de outras. São pessoas que têm cargos públicos, que têm posição no conjunto social como advogado, dono de academia, que colocam mensagens de ódio porque querem uma cidade higienizada e só deles.

DCM – Teme pela sua vida?

JL – Tenho fé e acredito na força do amor de Deus. Não posso querer nada de especial, minha proteção tem que ser a mesma que um morador de rua tem.  Minha preocupação é com a população de rua, pois são maltratados muitas vezes para me atingir. Outro dia um irmão me disse ‘Não posso dizer que te conheço, é perigoso’.

DCM – A vereadora Marielle Franco, mesmo depois de morta, continuou sendo difamada. O senhor sempre passou por isso com acusações de pedofilia e assédio sexual. A internet favorece a difamação?

JL – Acho que houve uma piora, pois as pessoas pensam que podem dizer o que quiserem. Então essas ameaças de que ‘é preciso fuzilar fulano’, ‘meter uma bala na cabeça de esquerdista’…

DCM – Esse é um ponto que chama atenção nas postagens. Todos os seus detratores o tratam como comunista, petista. Um padre ser de direita não é um contrassenso?

JL – Voltou à moda de chamar de comunista né. Nem existe mais o comunismo e aqui ainda usam isso como palavrão e ofensa. Isso mostra a pobreza intelectual dessas pessoas.

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O caso tomou as proporções que se espera e repercussão idem. Durante a entrevista, o celular do padre tocou. Era o prefeito João Doria ‘prestando solidariedade’, como se a política higienista não tivesse nenhuma relação com sua gestão.

O que pessoas realmente ‘de bem’ devem desejar é que padre Júlio Lancellotti permaneça vivo e atuante na Pastoral do Povo da Rua, em defesa dos direitos humanos e da dignidade para quem nada tem.

No domingo, dia 25 de março, haverá um ato público em defesa do padre Julio, na Paróquia São Miguel Arcanjo, às 9:00 hrs.

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