FHC, o Fazendeiro – no apartamento de Paris, o DNA da família Abreu Sodré. Por Alceu Luís Castilho

Publicado originalmente no site De Olho Nos Ruralistas

POR ALCEU LUÍS CASTILHO

O apartamento de FHC em Paris. Foto: Reprodução/De Olho Nos Ruralistas

A conquista da cidade-luz pelos Abreu Sodré teve sua origem histórica em disputas políticas locais, no município de Santa Cruz do Rio Pardo (SP), envolvendo grilagem e até assassinatos, no início do século 20. A família provinciana do interior paulista viu um de seus filhos chegar ao poder: governador biônico durante a ditadura, o udenista Roberto de Abreu Sodré comprou um apartamento na Avenida Foch que grudaria para sempre na imagem do presidente Fernando Henrique Cardoso.

A jornalista Mirian Dutra, com quem FHC teve um filho fora do casamento (ele o reconheceu em 2009, embora tenha divulgado um exame de DNA negativo), diz que Tomás Dutra ainda frequenta o apartamento, alternando com temporadas em Nova York. O elo entre aquela família aristocrática e FHC foi Maria do Carmo de Abreu Sodré Mineiro, a Carmo, casada com Nê – que é como o ex-presidente chama o pecuarista Jovelino Carvalho Mineiro Filho.

Foi na fazenda de Jovelino e Maria do Carmo, em Pardinho (SP), que Fernando Henrique e Ruth Cardoso comemoraram a primeira eleição para a Presidência da República, em outubro de 1994. E foi para o apartamento da mãe dela (Abreu Sodré morrera em 1999) que eles foram passar uma temporada, após o sociólogo deixar o Palácio do Planalto, em 2003.

A VERSÃO DE MIRIAN DUTRA


O ex-presidente nega ter qualquer apartamento no exterior. Em uma nota de esclarecimento publicada em 2015 em seu 
Facebook, ele disse que o imóvel pertencia a Maria do Carmo Mellão de Abreu Sodré (que possui o mesmo nome da filha), a sogra de Jovelino Mineiro.Em entrevista ao Diário do Centro do Mundo, em 2016, Mirian Dutra disse que FHC é o dono de fato do apartamento de Paris, comprado pelos Abreu Sodré. E de mais um no Trump Tower, em Nova York. “O Tomás fica no apartamento do pai em Nova York e, em Paris, naquele apartamento que está em nome do Jovelino Mineiro”, afirmou ao jornalista Joaquim Carvalho. “Ele é, na verdade, do Fernando Henrique”.

Mirian chama Jovelino de “operador” de Fernando Henrique. Conta que foi com ele e com o empresário Beto Carrero ver a fazenda em Buritis (MG) para avaliarem a compra – efetuada em sociedade com o ex-ministro Sérgio Motta. Como ela ficava sozinha em datas como Natal e Ano Novo, afirmou ela ao DCM, Fernando Henrique disse a ela que compraria a fazenda – a 216 quilômetros de Brasília – para que ficassem mais tempo juntos.

O apartamento onde Mirian morou em Barcelona também é mencionado pela jornalista. Ela o comprou no início de 1997, no distrito de Sarrià Sant Gervasi. (Naquele mesmo ano era demolido o estádio de Sarriá, do Deportivo Español, num dos bairros daquele distrito. Ele foi eternizado na crônica esportiva por causa da derrota da seleção brasileira para a Itália, em 1982, na “tragédia de Sarriá”.)

É que, segundo a jornalista, foi Fernando Henrique Cardoso quem mandou fazer a reforma no apartamento. O dinheiro teria sido enviado pelo senador José Serra (PSDB-SP) – naquele período, como hoje, ele era senador – e pelo espanhol Gregório Preciado, casado com uma prima de Serra, Vicencia Talan.

Em abril, a Polícia Federal divulgou um laudo que atesta transações financeiras entre Vicencia e o empresário José Amaro Pinto Ramos. Este foi citado pelo delator Pedro Novis – ex-presidente da Odebrecht, colega de Jovelino Mineiro em associações de pecuaristas –  como um dos que enviavam dinheiro para contas de Serra no exterior.

A MARCHA DAS FAMÍLIAS COM TERRA

Mas voltemos aos Abreu Sodré. A família cafeicultora foi diretamente responsável pela adesão de Jovelino Carvalho Mineiro Filho ao agronegócio – que, por sua vez, seria decisivo na iniciação de Fernando Henrique Cardoso e de seus filhos na pecuária. Boa parte das fazendas que Jovelino tem pelo Brasil vem do espólio do ex-governador e do avô de Maria do Carmo Mineiro, João Mellão. (Avô do ex-ministro e ex-deputado João Mellão Neto, que começou na política fazendo campanha para FHC, em 1978.)

Em 1986, Roberto Costa de Abreu Sodré trocou a presidência do Conselho Nacional do Café para assumir o Itamaraty, nomeado ministro das Relações Exteriores por José Sarney. Ele não tinha nenhum vínculo com a democracia. Pelo contrário. Foi governador de São Paulo pela Arena entre 1966 e 1971, quando a Operação Bandeirantes (Oban), a “sucursal do inferno”, torturava e matava presos políticos. Sua mulher, Maria do Carmo Mellão de Abreu Sodré (a filha herdou os primeiros nomes), criou e presidiu o Fundo de Solidariedade.

Antes, em 1964, o fundador da UDN ajudou a organizar a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. A Sociedade Rural Brasileira – que fica no mesmo prédio que a Fundação FHC – foi outra apoiadora daquelas manifestações anticomunistas de rua. Os conservadores protestavam contra comício do presidente João Goulart – que defendera as reformas de base. Um dos decretos que ele assinara permitia a desapropriação de terras em uma faixa de dez quilômetros à margem de rodovias e ferrovias.

O medo era da reforma agrária. E a famílias Abreu Sodré e Costa eram grande proprietárias de terras no interior paulista. O livro “Santa Cruz do Rio Pardo – memórias, documentos e referências” conta com detalhes como esse poderio agrário se refletia na política e na justiça locais. Muito antes do Exército reprimir acampamento de sem-terra na fazenda de FHC em Buritis (MG) e muito antes da polêmica sobre o apartamento de Paris.

UMA MARCHA TAMBÉM PARA O OESTE

No início do século 20, o ex-deputado Olympio Rodrigues Pimentel acusava Francisco de Paula Abreu Sodré – pai de Roberto – de corrupto e de ordenar crimes de violência. O juiz Augusto José da Costa, tio da mulher de Sodré, também não escapou das denúncias (presentes nos jornais da época) de proteger, nas palavras dos autores do livro, os “crimes políticos, espancamentos, invasões de terras, atentados e assassinatos”.

Francisco Abreu Sodré era genro do ex-deputado Antônio José da Costa Junior, irmão do juiz e amigo do presidente Campos Salles. Costa possuía terras no oeste paulista, desde a região onde fica atualmente Ourinhos, informam os autores do livro, “avançando terras para além do Rio Paranapanema até o hoje município de Jacarezinho”. O médico Sodré migrara do Rio e se casou com Idalina Macedo Costa. Herdou do sogro a influência política e se tornou fazendeiro.

As propriedades dos Mellão Costa e dos Abreu Sodré se estenderam do Vale do Parananapema, a atual região de Assis (onde fica Santa Cruz do Rio Pardo), para o que hoje é conhecido como Pontal do Paranapanema. É lá que ficam parte das terras de Maria do Carmo Abreu Sodré (e Jovelino) Mineiro. Por exemplo, a fazenda em Rancharia onde a família FHC vendeu seus primeiros touros Brangus: “FHC, o Fazendeiro – Vinte anos atrás, Fernando Henrique vendia touros em Rancharia (SP), na fazenda de Jovelino Mineiro”.

A FRONTEIRA ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO

Em 1902, o jornal Correio do Sertão – de oposição a Abreu Sodré, o pai do governador – relatou uma invasão de residência por capangas que buscavam um italiano chamado Sertori, que criticara o governo municipal de Sodré. “Consta na reportagem que o próprio Sodré determinou aos capangas as imobilizações de Sertori e Phelippe, enquanto aplicava-lhes tremenda surra com rebenque de couro tipo ‘rabo-de-tatu’”.

Roberto Costa de Abreu Sodré era o filho caçula de Francisco. Mais tarde ele se mudou para Avaré. Foi no município ao lado, Arandu, na Fazenda Jamaica, que as cúpulas das Forças Armadas de Brasil e Argentina se reuniram, em 1995 – como já ocorrera entre os presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín. A colunista Joyce Pascowitch contou na Folha que, “para que tudo corresse dentro dos conformes, o weekend sigilo total foi monitorado nos bastidores por Carmo Sodré Mineiro”.

FHC comenta esse encontro no primeiro volume dos “Diários da Presidência”. Ele tivera um longo despacho com o chanceler Luiz Felipe Lampreia, no dia 31 de outubro:

– Ele me deu conta de uma reunião que houve na fazenda do Sodré entre ele, Guido di Tella, o ministro de Defesa da Argentina, o chefe do Estado-Maior brasileiro e outras autoridades para acertar vários pontos com a Argentina. Uma reunião boa porque discreta, ninguém ficou sabendo, informal.

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