Felicidade é andar de mãos dadas com seu pai

Poucas coisas são tão inspiradoras, na vida de um homem, quanto a antiga memória paterna

Uma cena que sempre nos tocará

“Meus caras”. Com essas palavras ela descrevia aquela imagem do marido passeando com o filho. Eu achei que aqueles dois caras eram, naquele momento, muito mais que dois caras: eles eram todos os pais e todos os filhos dessa vida.

Lá vai o bom homem caminhando com seu rebento, a pequenina versão de si mesmo. Cada um parece olhar o seu próprio caminho, e sem se dar conta eles vão percorrendo o caminho conjunto de ambos, contando com seus gestos tão simples a história dos homens. Por enquanto é a forte mão do pai que conduz a fragilidade do filho pelos caminhos do mundo; daqui a alguns anos, serão suas palavras e atitudes. Depois, quando o filho se tornar o pai, será a pura admiração filial.

Admiração. Penso em meu pai (já falecido) e gosto de imaginar que ele sentiria uma ponta de orgulho ao me ler aqui. Nessas horas, eu me sinto um pouco como aquele pequeno garoto segurando a mão firme do pai, um garoto que ainda gosta de pensar que o pai se orgulharia dos seus atos.

Acho que existe ali, entre pai e filho, algo natural e latente: o sentido da amizade e, diria, a possibilidade da aventura. Imagino pai e filho na estrada, pai e filho no mar, pai e filho nos céus (o que me vem ao pensamento agora é Ícaro voando ao lado de seu pai, Dédalo; ou quem sabe o aventureiro Indiana Jones combatendo os nazistas juntamente com Dr. Jones pai). Olho os nossos caras naquela imagem e imagino para eles um mundo de aventuras, um mundo de conversas, um mundo de dias e noites infindáveis. Para eles e também para nós, os pais e os filhos desse mundo.

Lá vão eles, caminhando por uma calçada qualquer numa tarde de um dia qualquer. Sei lá, essa imagem me destila uma certa pureza na alma, me inspira uma súbita benquerença pelas coisas da vida; eu vejo esses dois caras e me vem uma felicidade pueril de quem se lembrou de algo muito bom que estava sumido lá longe no tempo, uma quase nostalgia de algo que parece estar se perdendo nesse mundo.

Lá se vão os dois, apenas eles dois; agora eles estão partindo, de costas para o mundo, buscando quem sabe, lá num futuro indefinido, essa mesma imagem que agora eu tenho deles: que um dia estiveram assim, lado a lado, de mãos dadas, pai e filho, uma só calçada. Um tempo vivido em passos paralelos, passos que se encontrarão lá no infinito da vida, lá na eternidade das lembranças, lá onde pai e filho se incorporam no mesmo homem.

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