“Está no DNA deles”: o ato dos jornalistas contra o golpe. Por José Cássio

Ato em Defesa da Democracia no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo
Ato em Defesa da Democracia no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo

 

“Não podia imaginar que, depois de 40 anos, eu teria de recorrer novamente à mídia internacional para saber o que está acontecendo no meu país”.

O professor (ECA/USP) Laurindo Leal Filho se referia a meados da década de 70 quando tinha de sintonizar a Rádio BBC de Londres para saber notícias sobre o golpe de Estado ocorrido no Chile e que consistiu na derrubada do regime democrático constitucional e de seu presidente, Salvador Allende.

Como ele, nomes importantes do jornalismo brasileiro aproveitaram o Dia do Jornalista, nesta quinta, para se manifestar contra o golpe e pela democracia em ato no Sindicato da categoria. Foram unânimes em apontar que a postura da grande imprensa está contribuindo para incitar o ódio e acirrar a crise política no país.

Na opinião do professor, a atual crise brasileira nada mais é que um repeteco de 1964.

“As conquistas sociais dos governos Lula e Dilma representam o mesmo que as reformas de base de João Goulart: medo, algo que incomoda as classes dominantes”, afirma. O posicionamento dos meios de Comunicação, de enviesar o noticiário e agir escandalosamente conforme seus interesses, está dentro da normalidade, segundo Laurindo Leal.

“Nisso eles são coerentes, pois têm no seu DNA  a defesa dos interesses das classes mais abastadas”.

Outro ponto levantado é o motivo de a mídia exercer tanta influência sobre os indivíduos, a ponto de interferir na própria Justiça, como está claro com as articulações envolvendo jornalistas e o juiz Sérgio Moro.

“Isso passa pela fragilidade dos nossos partidos políticos”, diz Laurindo Leal. “De alguma maneira eles delegaram à mídia o papel de interlocutora com a sociedade”.

A colunista Barbara Gância é outra que fez questão de ressaltar os excessos.

“Nos fizeram acreditar que o Lula inventou a luta de classes”, disse ela. “Na década de 60 nós já andávamos de carro blindado”. Barbara conta que decidiu tomar posição depois que o juiz Sérgio Moro decretou a prisão coercitiva do ex-presidente.

“Até ali eu estava na minha, vendo o país dividido entre petralhas e coxinhas. Estava entre milhões de pessoas que não tinham voz, que não estavam nem de um lado, nem de outro, mas agora vejo que o que está ocorrendo é a tentativa de um grupo de encurtar o caminho para chegar ao poder. Não se pode insultar 54 milhões de trabalhadores, e ainda conspirar contra uma pessoa como a Dilma, que não cometeu nenhum crime grave”.

Barbara falou do patrulhamento que sofreu por suas posições.

“Fui demitida da Band porque me recusei a pegar leve com o Eduardo Cunha”, disse ela. “Um belo dia recebo uma orientação: você não pode falar do Eduardo Cunha porque ele é primo do Johnny Saad (dono da emissora). Como assim? Eu sou comentarista, jamais podia aceitar uma coisa dessas”.

O presidente do Sindicato, Paulo Zocchi, classificou de farsa o que está ocorrendo no país.

“É uma intenção clara de inviabilizar o governo e impor um modelo econômico-social condizente com interesses contrários aos dos trabalhadores e do país: o fim de carteira de trabalho, com a terceirização da mão de obra, e a entrega do pré-sal para empresas estrangeiras, são apenas dois exemplos”, disse ele.

No ato, o jornalista Breno Altman denunciou violações por parte da Justiça.

Na sexta-feira, 1º de abril, ele foi levado para depor coercitivamente pela Polícia Federal no âmbito da Operação Lava-Jato. “Fui levado forçadamente a depor sem ter recebido uma intimação anteriormente”, afirmou Altman, que teve o “sigilo de fonte”, garantia constitucional do jornalismo, quebrado – levaram de sua casa computadores, gravadores, discos rígidos e anotações diversas.

Decano do jornalismo brasileiro, Audálio Dantas afirmou que a postura da mídia não o surpreende. “Ela sempre apoiou os movimentos golpistas”

Altamiro Borges, do Centro de Estudos Barão de Itararé, lembrou que jornalistas estão sofrendo agressões por se colocar contra o impeachment, e citou Juca Kfouri.

“O que está em jogo não é a corrupção, senão o impeachment não estaria sendo conduzido pelo correntista da Suiça Eduardo Cunha”, ironizou. “É um projeto de país que a elite quer impor”.

 

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