Escritores que amo — Graham Greene (número 1 de uma série)

Greene

Depois de escrever sobre Dostoievski, decidi colocar aqui no Diário os romancistas que amo, eles que com uma caneta me fizeram rir, chorar, sonhar. O primeiro é o inglês Graham Greene, um dos maiores autores do século 20.

Graham Greene foi uma paixão à primeira lida.

Meu pai me deu O Cônsul Honorário quando eu era adolescente, nos anos 1970. Li, me apaixonei e acabaria lendo todo Greene nos anos seguintes.

Papai tinha uma afinidade clara com Greene: eram ambos católicos. Papai admirava em Greene a fé inquieta, heterodoxa, feita de dúvidas e questionamentos. O Vaticano admirava Greene bem menos que papai: Greene foi para o índice de autores censurados com O Poder e a Glória, um romance cujo herói é um padre bêbado, covarde e sexualmente corrupto.

É um romance passado no México revolucionário da década de 1940, quando os padres católicos foram caçados e exterminados.

Em O Poder e a Glória aparece um típico personagem de Greene que me deixaria mesmerizado: o herói relutante. O padre de Greene acaba encontrando a redenção num gesto heróico que faz contra todas as probabilidades.

Greene estava dizendo o seguinte: os seres humanos somos horríveis, mas existe sempre a possibilidade gloriosa da redenção.

Greene era um mestre também das situações românticas. Mas do seu jeito. Em O Cônsul Honorário, passado na América Latina da época das ditaduras militares, um médico, Eduardo Plarr, se apaixona por uma mulher casada. Era exatamente a mulher do cônsul honorário do título – uminglês bêbado vagabundo sem nenhuma importância que acaba sequestrado por engano por guerrilheiros. Entre os guerrilheiros está um padre, Rivera, que diz que aderiu às armas porque não aguentaria esperar por “outro João 23”. João 23 foi um papa de esquerda, claramente empenhado em lutar pelos pobres.

Rivera era outro personagem que o Vaticano abominaria.

Escrevi alguns artigos de política na Época sob o pseudônimo de Eduardo Plarr. Assim como escrevi um conto para a Vip sob o pseudônimo de Maurice Bendrix, o anti-herói de Fim de Caso.

Fim de Caso é um dos romances de Greene mais interessantes do ponto de vista dos relacionamentos amorosos. Bendrix tem um caso com uma mulher casada e católica. Quando ele descobre que ela está doente e vai morrer, passa a insultar o Deus em que ela tanto acreditava. Bendrix tem um sentimento complexo em relação ao marido dela – simpatia, piedade e ao mesmo tempo ciúme e ódio.

É algo que você encontra em Plarr. Ele sente uma coisa parecida pelo homem com cuja mulher está dormindo. E também em Os Comediantes, outro de meus Greenes favoritos. O narrador, em mais um romance passado no Haiti sob a ditadura de Papa Doc, se envolve com a mulher de um diplomata. O herói relutante de Os Comediantes é um mentiroso compulsivo que para impressionar as pessoas diz que teve passagens épicas em guerras. Ele acaba sacrificando a vida na primeira vez em que de verdade participa de uma ação militar. Morre tentando ajudar os revolucionários do país em que estava a se livrar da ditadura corrupta.

Greene, um homem de esquerda que abominava os Estados Unidos sem sentir nenhuma inclinação pela União Soviética, se beneficiou da era em que a Grã Bretanha foi um império em que o sol não se punha. Como era comum então entre os britânicos, viajou pelo mundo e pôde situar seus livros em partes distintas.

Era um livre pensador, um filho amado e rebelde do império britânico. Foi até o fim amigo e uma espécie de advogado moral de Kim Philby, o maior espião que a Inglaterra jamais conheceu. Philby, que ocupava um alto posto no serviço de inteligência britânico, o MI 5. Greene dizia que a verdadeira ignomínia estava em trair um amigo, e não um país.

Que ele não tenha ganho o Nobel é algo que depõe não contra ele, mas contra a Academia Sueca. Durante muito tempo, no fastígio de Greene como escritor, nos anos 60 e 70, toda vez que chegava a época de anunciar o Nobel de Literatura seu nome era citado como um forte candidato. O prêmio nunca foi dado. A versão mais acreditada que correu é que Greene pagou o preço de ter sido amante da mulher de um dos jurados da Academia Sueca.

É uma honra, um privilégio, uma alegria eu estar vivendo uma temporada na Londres de Greene.

Li, claro, as duas autobiografias que Greene escreveu. O episódio que mais me impressionou foi a roleta russa que ele fez na juventude para vencer o tédio.

Greene colocou uma bala no tambor que alojava seis, girou-o e apertou o gatilho. Nada. Fez mais uma vez, depois. Nada.

Já não queria mais então jogar esse jogo. Mas antes de se livrar do revólver considerou que era justo dar mais quatro chances a ele para igualar as coisas. Tambor de seis balas, e portanto seis vezes o gatilho tinha que ser apertado, na precisa ainda que estranha lógica de Greene.

Silêncio sempre.

Graças a Deus.

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