Era uma vez em Zurique: a história de Vivaldo, um brasileiro

Frio, mas bom
Frio, mas bom

NÃO ENCONTRO O controle remoto da tevê no quarto do hotel em que estou, em Zurique. Quero ver os jogos da fase final do torneio de tênis da Austrália. Ligo 111, para a recepção, e conto meu problema. A recepcionista avisa que o porteiro vai subir para me ajudar. Batem na porta e abro. “Que aconteceu?”, ouço. Em português. Era o porteiro, e também um faz tudo, percebi. Brasileiro.

“Como você veio parar aqui na Suíça?”, pergunto. “Com tanto lugar no mundo, por que justo a Suíça?” É um país pequeno e fechado. Tem menos de 8 milhões de habitantes, mais ou menos metade de São Paulo. Como ele viera parar justo aqui? Ele está na faixa dos 30, veste um uniforme discreto e vejo, no crachá, que se chama Vivaldo. Magro, tamanho médio, cabelos cortados zero e, se deixados crescendo, escassos. Tem um sotaque estranho para mim, e depois fico sabendo que ele é de Goiânia. Tenho visto tantos goianienses na Europa que imagino haver uma Goiânia paralela espalhada pelo mundo, uma diáspora particular de brasileiros descontentes da região.

“Um amigo morava aqui e me disse para vir”, ele diz. Antes de vir para cá, Vivaldo morara na “América”, como se refere aos Estados Unidos. Está há seis anos fora do Brasil. Saudade?

“Eu não tenho trabalho lá, que fazer?”, ele diz. Quero saber como é viver aqui. Sou um curioso profissional.  Em Berlim, interroguei um motorista de táxi, e gostei de saber que lá os motoristas ganham o suficiente para trabalhar apenas cinco dias por semana e passar férias de inverno em lugares quentes, no exterior. Aquele taxista específico ia em fevereiro para as Ilhas Canárias.

“O salário mínimo aqui, em euros, é 2 700”,  diz Vivaldo. A moeda local é o franco suíço, que vale um pouco menos que o euro. Traduzido em reais, dá um pouco mais de 7 000.

“Todo mundo registrado aqui ganha no mínimo isso?”, pergunto.

Ele aquiesce.

“O garçom que me atendeu agora há pouco”, insisto. “Também ele ganha isso?”

“Muito mais, porque além do fixo eles ganham gorjeta.”

Toca o celular dele. Ele atende em português, “alô”, mas logo muda para o alemão, que aprendeu numa escola em Zurique. A Suíça é estranhamente difusa em línguas para um país tão pequeno. Alemão, italiano, francês, suíço-alemão: dependendo da região se fala cada uma dessas línguas, ou várias delas. Chamam-no no hotel, mas a conversa segue mais um pouco por insistência minha e, imagino, porque Vivaldo gostou de encontrar um compatriota. Há pessoas que não gostam: eu fico sempre feliz em achar um brasileiro quando estou fora.  Ele me conta que tem seis semanas de férias por ano. Divide em duas de três, e vai em ambas para o Brasil. Pergunto da saúde pública.

“Todo mundo paga”, ele diz. Sua contribuição é de cerca de 300 euros por mês, e isso lhe dá direito a médico, hospital e, se necessário, qualquer remédio. Se você está desempregado, o Estado paga por você para que você fique coberto.

“Aconteceu com você?”, pergunto.

“Fiquei sem emprego por um mês e meu seguro de saúde foi coberto pelo governo. Recebi, também, como todo mundo, 80% do meu último salário enquanto estive desempregado. O governo me ofereceu também cursos para eu me qualificar mais.”

“E se você quisesse ficar na mamata?”

“O desempregado tem que provar, regularmente, que está procurando emprego. Não tem moleza. Isso é controlado.”

Toca mais uma vez o celular.  É bom que ele vá para não correr o risco de voltar aos 80%. Pergunto ainda se ele tem carro.

“Para quê?” Ele mora perto do trabalho, e além do mais o transporte público de Zurique é exemplar. “No Brasil tenho, aqui não.” Presumo que, como tantos outros habitantes de Zurique, se um dia ele quiser um meio de transporte vai optar por uma bicicleta. É uma cidade plana, em que os carros dão prioridade para pedestres e ciclistas. Também eu comprei uma bicicleta em Londres, e vou escrever em breve sobre isso. Acho um absurdo as grandes cidades brasileiras serem tão indiferentes às bicicletas, que fazem bem para quem anda e para o meio-ambiente. Uma bicicleta a mais na rua, vi outro dia num vídeo de Copenhague, um carro a menos. Bom.

Vivaldo volta a falar do seguro saúde.  Ele não parece nem um pouco incomodado em pagá-lo. No dia anterior, ao voltar da conferência em Davos em que se discutem os destinos do mundo, rachei um táxi com uma jornalista suíça. Ela me mostrou, a certa altura do trajeto, uma universidade prestigiosa de Zurique. Pública, como a USP. Mantida pelo governo.

As circunstâncias mudaram, mas a USP não
As circunstâncias mudaram, mas a USP não

“Gratuita?”, perguntei.

“Não. Todo mundo paga.”

Penso no absurdo que é a USP: seu típico aluno vem das famílias mais ricas, que puderam pagar boas escolas. É o retrato da perpetuação dos privilégios. Seus alunos vão, depois de formados, ocupar as melhores posições. Faz sentido? Que político paulista teve visão, coragem e firmeza para enfrentar essa afronta à lógica? E os alunos, tradicionalmente da esquerda que deveria ser solidária com os pobres, defendem ferozmente a manutenção dessa vantagem dada aos que têm mais dinheiro. Quando o ensino público era de alta qualidade em São Paulo, até os anos 60, tudo bem que a USP fosse como fosse. Uma pessoa pobre e aplicada tinha chance. Depois, com a transferência da qualidade para as escolas particulares, vedadas aos pobres exceto em casos esparsos de bolsa, a USP virou um símbolo de injustiça social. Alunos das melhores escolas têm muito mais chance. Mudaram as circunstâncias, mas não a lógica pétrea da USP.

Longe disso, o brasileiro Vivaldo parece pagar seu seguro saúde com a convicção de que é uma troca justa. Jamais tive essa sensação no Brasil. O governo sempre me comeu um bom dinheiro em impostos, mas não escapei de convênios particulares de saúde, escolas privadas e, depois, a segurança cara dos condomínios. Deve ser bom pagar imposto com a sensação de que seu dinheiro é bem utilizado. Mas para isso, como para fumar num café ou restaurante, você tem que estar em Zurique. Como Vivaldo, um brasileiro de Goiânia, onde existem muitos Vivaldos, não me pergunte por quê.

Ele não achou o controle remoto que sumira e trouxe outro. Testou, funcionou e voltou a seu posto de porteiro de hotel.

Quanto a mim, achei  uma boa história para contar.

Ou não?

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