Entrevista: o neto de Jango fala sobre mídia, eleições e o ‘golpe branco’

João Alexandre
João Alexandre Goulart

João Alexandre Goulart tem 35 anos, é publicitário formado de Porto Alegre e militante do PDT. Seu avô é o famoso João Belchior Marques Goulart, gaúcho de São Borja e presidente deposto no golpe militar de 1964, que colocou o general Castelo Branco no poder.

Para João Alexandre, de acordo com um post dele publicado no Facebook e devidamente viralizado, um novo golpe está em curso contra a candidata à reeleição Dilma Rousseff do PT. Nesta investida, o tucano Aécio Neves foi escolhido para representar os interesses das grandes corporações.

O neto de Jango acredita que a imprensa está fazendo uma desconstrução da imagem de Dilma sem fazer uma crítica necessária a Aécio, dentro da legalidade mas visando tirar a governante do poder. João Alexandre Goulart diz que não é petista e relembrou as histórias de seu avô, além das de Leonel Brizola.

O DCM perguntou o que João Alexandre entende por “golpe branco”, quais são suas opiniões sobre as eleições, sobre a mídia e por que ele apoia Dilma Rousseff nesta competição.

Como você compara as eleições de hoje com o passado histórico da sua família?

Ela é uma evolução nos métodos e de conduta política. Dentro da democracia conquistada após 20 anos de ditadura, nós adquirimos a liberdade e a estabilidade monetária e política, mas ainda não conquistamos a reforma do Estado por meio das reformas de base. Espero que isso ocorra um dia começando pelo segundo governo de Dilma Rousseff, caso seja reeleita. Tenho convicção de que será muito melhor do que foi o primeiro.

Você falou no Facebook sobre um “golpe branco” contra Dilma. Por que isso está ocorrendo?

O golpe branco contra Dilma é empresarial e monopolista. Querem o monopólio da opinião e isto não é valido. Mas, antes de tudo, devemos entender o significado do termo golpe branco. É uma expressão usada na historiografia e na ciência política para se referir a uma conspiração ou trama que tem como objetivo a mudança de uma liderança política por meios parciais ou integralmente legais. Hoje nós todos sabemos da conspiração que aliou civis, militares e parte considerável da mídia para derrubar meu avô, João Goulart, em 1964.

É por isso que eu acredito que a campanha de terrorismo econômico sistemática do oligopólio de meios de comunicação busca desestabilizar o governo da presidenta Dilma e é muito semelhante com o que o IPES fez durante o governo do meu avô.

Hoje os métodos são distintos e as empresas midiáticas querem fazer a sociedade brasileira de mais de 200 milhões de pessoas crer que é plenamente compreensível, válido e justo que 90% dos meios de comunicação do Brasil estejam nas mãos de um grupo muito pequeno de famílias em nome da livre iniciativa e da liberdade de imprensa.

Precisamos de reforma dos meios de comunicação?

Sim. O que presenciamos hoje é a desconstrução da imagem da presidenta Dilma Rousseff. Associam-na com a incompetência e a corrupção quando, na verdade, temos uma gestora das mais competentes e corretas das últimas décadas. Que liberdade é essa que limita a opinião pública de uma nação tão grande aos interesses dessas famílias? Isso é ditadura de opinião a favor de uns poucos privilegiados.

Você então apoia uma regulação econômica da mídia?

O próprio Aécio não defende a “meritocracia” para os outros? Pois bem, é crucial para o avanço de democracia brasileira e formação dos valores o aumento da concorrência entre os veículos de comunicação para que se aumente a pluralidade de opiniões. Ou você acha sinceramente que os donos da Rede Globo, Band, Grupo Abril e SBT vão votar em Dilma? Eu tenho convicção que eles irão votar todos em Aécio. Hoje temos milhões de pessoas escutando somente a opinião de oito famílias ricas que pretendem manter seus privilégios. Elas também sonegam impostos bilionários da receita Federal e fica por isso mesmo.

Você sempre simpatizou com o governo de Dilma Rousseff? Por quê?

Não se trata de uma questão de simpatia, se trata de entender o caráter da minha presidenta, diferente do que a grande mídia quer fazer ao colar nela os possíveis erros do PT. A comunicação foi tão manipulada que pintam o Aécio Neves como se ele tivesse uma varinha mágica e fosse resolver os problemas do Brasil em um instante. Isso me lembra muito a campanha de Collor ou até mesmo a campanha de Jânio Quadros. Aécio não é nada disso que falam. Esta mídia na verdade nunca admitiu a participação popular, por isso somos condicionados somente a escutar o que eles dizem sem o direito de contestar.

Você tem críticas ao governo Dilma?

Todos os governos merecem críticas. Uns mais, outros menos. Estou plenamente convencido de que estes próximos quatro anos de Dilma serão os anos da redenção do nacionalismo, da brasilidade, da distribuição de renda e do orgulho de um país de todos. Ela tem muito a fazer sem as práticas partidárias que eventualmente o PT possa ter cometido.

Quais são suas críticas para o candidato Aécio Neves?

O que Aécio entende de programas sociais? O que ele fez como senador, além das suas ausências do Senado? Ele faltou 26 vezes em 2011, 20 vezes em 2012 e 15 vezes no ano passado.

Aécio usou a expressão “revolução de 1964” em um evento em Santos no ano de 2013. Você acredita que ele é um candidato que atrai simpatizantes da ditadura militar?

Aécio Neves é filho do deputado Aécio Cunha, membro da ARENA, partido da ditadura que combateu os verdadeiros democratas. Eles apoiaram o fim do pluripartidarismo e criaram os parlamentares biônicos para nunca perder uma eleição. Preferiria que ele tivesse se apresentado com o nome de seu pai, Cunha, sem o Neves que lembra seu avô, um grande getulista e janguista. Ele não estaria apoiando esta aventura entreguista de seu sobrinho-neto, que faz parcerias espúrias para tentar o poder a qualquer preço.

Em quem você votou no primeiro turno? Não precisa me falar se não quiser.

Já declarei publicamente meu voto para presidente. Votei na Dilma 13 e votarei 13 novamente no segundo turno. Número histórico do Comício da Central do Brasil no dia 13 de março de 1964, feito por meu avô João Goulart que ficou conhecido pelo Comício das Reformas.

O PT representa uma mudança histórica nos governos brasileiros?

Histórica não, pois representa a continuação de um mesmo projeto trabalhista por meio das lutas populares de Getúlio, de Jango, de Brizola e de Pasqualinni. Em outra época, foi o PTB responsável por isso. Hoje são PT, PDT e PCdoB a levantar essas bandeiras de avanços progressistas. O trabalhismo e o sindicalismo não nasceram no ABC, tenha certeza. A luta sindical nasceu muito antes. Ninguém pode se achar dono das lutas pela justiça social. O trabalhismo de meu avô João Goulart está acima dos partidos. O golpe de 1964 não foi dado contra Lula nem contra o PT. O golpe de 1964 foi dado contra o trabalhismo de Jango. Ele foi o presidente das Reformas de Base até hoje desejadas e necessárias para a transformação e evolução da sociedade brasileira.

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