Eleição no Paraguai é marcada por baixa mobilização. Por Murilo Matias, de Assunção

Benítez, de direita, está à frente nas pesquisas; Efraín Alegre lidera chapa de centro-esquerda

Estreia de partido indígena e disputa no Senado entre atual presidente Cartes e o senador e ex-mandatário Fernando Lugo chamam a atenção em meio a campanha de baixa mobilização.

A potência da gigante Itaipu e o alto preço das contas de energia que chegam todo o mês na casa dos paraguaios representam apenas uma das distorções da sociedade vizinha ao Brasil, que realiza eleições presidenciais neste domingo sob a pouca atenção da comunidade latino-americana. As pesquisas de intenção de voto, que muitos denunciam serem compradas, indicam que o Partido Colorado deve manter-se no poder com a eleição de Mario Abdo Benítez para suceder o empresário Horácio Cartes, ambos representantes da direita nacional e vinculados à ditadura de Alfredo Stroessner.

Enquanto os conservadores contam com a máquina governamental e a tradição para mais uma vitória, o pouco entusiasmo com a candidatura de centro-esquerda do Partido Liberal e da Frente Gausu, encabeçada por de Efraín Alegre, ex-ministro durante a presidência de Fernando Lugo que votou por sua destituição, reflete-se na baixa intensidade de mobilização popular na campanha. A blindagem midiática às eleições e a sensação de corrupção generalizada entre todos os partidos também afasta parcelas expressivas do eleitorado do processo que determinará não somente o chefe do executivo, mas também 45 senadores titulares, 30 suplentes, 80 deputados, 17 governadores e representantes para as juntas departamentais.

“Desde o golpe contra o ex-presidente Fernando Lugo, a democracia e os direitos sociais retrocederam diante do poder da direita. Pouco se discute sobre soberania, acesso a programas sociais e reparatórios e existe uma ideia espalhada de putrefação da política, de que não há alternativas e mudanças possíveis pela via do voto. A degradação é tamanha que a relação de candidatos do Partido Colorado para as casas legislativas ficou conhecida no país como a lista do inapresentáveis”, opina Marta Javier, residente em Assunção, capital.

O descrédito do eleitorado em relação ao campo político relaciona-se ainda com a experiência de restrição de direitos historicamente imposta pelo estado junto aos cidadãos, sobretudo os das classes baixas, somada à profunda concentração de terras e de renda que faz um de cada quatro paraguaios situar-se na extrema pobreza de acordo com a Direção General de Estatística, Pesquisas e Censos. O desinteresse contrasta com as fortes manifestações protagonizadas por campesinos e indígenas em busca de reconhecimento e melhores condições de trabalho nos últimos meses.

A situação de exploração dos trabalhadores da terra pode ser medida na estatística que aponta a concentração de 85% das terras para apenas 2,5% de proprietários, a maioria produtores de soja, principal item de exportação da balança comercial. Muitos desses latifundiários são brasileiros e acabam por causar o rechaço dos paraguaios da agricultura familiar com a presença do modelo de agroexportação empresarial promovido pelos estrangeiros na área rural, onde vivem 42% da população.

O relato de situações de discriminação e hostilidade são frequentes a outros grupos como o das mulheres, subrepresentadas na política, com apenas 17% de espaço no legislativo e quase ausentes do executivo – os dez candidatos presidenciais são homens, por exemplo -e principais vítimas da violência. A inexistência de qualquer legislação no campo dos direitos  LGBTI configura mas uma das posturas de intolerância contra minorias sociais, sem qualquer perspectiva de avanço nesses assuntos independentemente de quem for o próximo eleito.

A disputa pelo senado

Se a apatia da briga pela presidência parece favorecer o continuísmo, a disputa por cadeiras no senado  oferece episódios de maior acirramento entre as diferentes propostas e chances de renovação apresentadas na esteira do avanço da pobreza, apesar do crescimento econômico dos últimos anos e do salário mínimo na faixa de  dois mil guaranis, ou mil e duzentos reais. A realidade de exclusão foi mais significativamente  combatida durante a experiência do atual senador Fernando Lugo, afastado da presidência em 2013, no que seria o segundo golpe parlamentar na América latina, depois do empreendido em Honduras contra Manuel Zelaya.

A destituição devido à utilização de um conflito agrário com o registro de dezessete mortes para alegar a incapacidade do então presidente trouxe novamente o grupo que atualmente detém  o controle do governo e retirou o vigor de programas sociais como o Hambre Cero, inspirado no exitoso modelo brasileiro de política social para o combate à fome. As boas relações entre os governos à época alinhados à esquerda foi ratificada pela Frente Guasu e Lugo, que, como principais expressões do progressismo nacional, posicionaram-se contra a prisão política e a perseguição ao ex-presidente Lula. “Vamos obter uma votação muito impositiva. Esperamos avançar no senado ao duplicar nossos membros e eleger governos aliados nos estados”, projeta o deputado pela Frente Guasu, Ricardo Canese.

O ex-presidente do Paraguai, Fernando Lugo, e Lula. Foto: Ricardo Stuckert

O mesmo otimismo é transferido pela novidade representada pelas candidaturas do Movimento Político Indígena Pluralista, o primeiro reconhecido oficialmente em todo o território. A discriminação que faz com que muitos paraguaios não se identifiquem como indígenas é contrastada pela presença do guarani como língua e nas tradições que permanecem no país, apesar das tentativas de aculturamento.  “Lutamos pela inclusão. Com nenhum governo tivemos oportunidades de integrar a estrutura do poder. Essa oportunidade estamos construindo com esse movimento a nível nacional. Há muito boa aceitação entre o povo e estamos trabalhando a plenos pulmões, sem medo de intimidações”, afirma Geronimo Ayala, que defende uma reforma constitucional com participação popular.

A violência deflagrada contra as comunidades indígenas e do campo foi reproduzida nas cidades com efeitos negativos ao oficialismo. Depois da morte do dirigente estudantil Rodrigo Quintana em meio a protestos e da oposição no Congresso, Cartes se viu pressionado a desistir da emenda que permitiria sua reeleição, mas ainda assim não deseja se afastar dos círculos de decisão. Mesmo de forma inconstitucional, por se manter na presidência enquanto disputa uma vaga no senado, o atual mandatário deve voltar ao parlamento onde conseguiu a aprovação de projetos como a Lei da Militarização, para combater e criminalizar movimentos sociais e vetou iniciativas que previam impostos para os exportadores de soja e tabaco, ramo no qual atua como um dos homens mais ricos da nação.

O patrimônio em contas do exterior de pessoas muito próximas ao presidente e as acusações de vinculação do aparato estatal com o narcotráfico podem combalir a expectativa de votos de Cartes. Para além das dúvidas, dados oficiais apontam para o segundo pior índice de mortalidade infantil da região – 18,7 cada 1.000 nascidos vivos – e para as más condições de hospitais públicos que obrigam muitos paraguaios a atravessar a fronteira rumo a argentina na busca de atendimento.

Em seus diferentes caminhos, os paraguaios parecem insistir na rota conservadora e neoliberal estimulados por suas elites e pela interferência que eles chamam imperialista (Estados Unidos), ainda que a esperança de mudança grite na alma de muitos paraguaios . “Precisamos avançar na reforma agrária, democratizar o acesso à terra, preservar nossa soberania ,patrimônio e garantir os direitos sociais. É essa sociedade que defendemos “, afirma Diego Veron, militante político.

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Murilo Matias é jornalista, colaborador de publicações internacionais, como o Le Monde, e fez este artigo exclusivo para o Diário do Centro do Mundo.

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