Edifício Wilton Paes de Almeida. Por Douglas Nascimento

Publicado originalmente no site São Paulo Antiga

POR DOUGLAS NASCIMENTO, jornalista

Edifício Wilton Paes de Almeida no largo do Paissandu. Foto: Reprodução/São Paulo Antiga

Quando pensamos em edifícios modernos e arrojados logo vislumbramos regiões como a das Avenida Paulista, Berrini e Faria Lima. Entretanto o centro de São Paulo também possui exemplos notórios de arquitetura de vanguarda.

Sao construções que debutaram principalmente na década de 1960, época em que São Paulo ainda crescia a passos largos e ainda carregava o apelido de ˝Paliteiro da América Latina˝.

Curiosamente das 5¹ principais construções desta época, três foram palco de tragédias: Os Edifícios JoelmaAndraus e, em 2018, o Wilton Paes de Almeida. E é este último que iremos abordar neste artigo:

Ousado projeto arquiteto Roger Zmekhol, o Wilton Paes de Almeida partiu de uma obra onde foi aproveitado o máximo do pequeno espaço disponível para se erguer um arranha-céu, em uma área da cidade já densa e com poucos terrenos ainda disponíveis para a construção de edifícios.

Zmekhol projeto em um terreno de 650 m², um gigante de estrutura metálica com lajes de concreto que concluído totalizava impressionantes (para sua época) 12.000 m².

Sua construção foi iniciada em 1961 e concluída em 1968, já no final da década, sendo realizada pela Morse & Bierrenbach². O prédio leva o nome do banqueiro Wilton Paes de Almeida, um de seus idealizadores e investidores que faleceu em 1965, antes da inauguração do edifício.

A modernidade da construção, destoante de todos os demais ao seu redor, não ficava restrita apenas ao exterior. O edifício possuía um eficiente sistema de ar-condicionado central, que atendia a todos os andares, mármore importado da Grécia no acabamento dos pisos, e uma moderna e até então inovadora e inédita central de PABX da empresa Siemens.

O luxo se estendia aos vidros que envolvem todo o edifício, que eram de cristal Ray-Ban, importados da Bélgica. As janelas basculantes (que não eram todas) eram feitas de um sistema novo para a época, que permitia sua abertura sem fazer qualquer esforço (era possível deslizar apenas com dois ou três dedos).

Ainda falando do conforto do prédio, o edifício contava com um elevador privativo para o andar da presidência do grupo empresarial, no 18º andar, e um enorme restaurante para funcionários no 21º, que comportava até 200 pessoas de uma vez. Na cobertura havia um heliporto.

EDIFÍCIO ABRIGAVA MAIS DE UMA EMPRESA:

No Wilton Paes de Almeida coabitavam várias empresas, a grande maioria delas pertencente ao mesmo conglomerado e ligadas ao então dono do edifício o empresário, banqueiro e político Sebastião Paes de Almeida³. Ali operavam, entre outras menores, a Companhia Comercial de Vidros do Brasil (ou CVB), Socomin, Banco Nacional do Comércio de São Paulo, Banco Mineiro do Oeste S/A e a Oleogazas.

Apesar de todo esse número de empresas, sucessivas crises econômicas no país levaram os proprietários do edifício a contraírem dívidas com o governo federal que não puderam ser honradas. A situação ficou insustentável e no final da década de 1970 colocaram o edifício à venda. Em 1977 ele foi adquirido pela Caixa Econômica Federal.

O COMEÇO DO FIM:

Em 1978, após cerca de um ano de inatividade, o edifício passa a contar com uma agência da Caixa no térreo e também outras repartições do banco em outros andares (os mais baixos), como a Chefia de Contencioso Fiscal.

Posteriormente o prédio receberia um posto do INSS e no início dos anos 2000 passou a abrigar a Polícia Federal. Durante esse período quase nada era feito para manter o prédio em boas condições.

Anos mais tarde os dois órgãos públicos deixaram o Wilton Paes de Almeida para que vazio ela fosse colocado à venda pela União. Com a morosidade do processo e a ausência de interessados em um primeiro momento, o prédio foi ocupado por pessoas pobres e sem moradia.

Sem eletricidade ou elevadores funcionando a situação do prédio já era precária estando desocupado. A partir do momento em que pessoas passam a habitar nele o risco de algo trágico acontecer passou a ser ainda maior.

O improviso na busca por luz elétrica, água potável e até mesmo para cozinhar passou a fazer do moderno edifício dos anos 60, agora em total abandono, uma tragédia anunciada.

A madrugada de 1º de Maio de 2018 começou de maneira trágica para as famílias que ocupavam o decadente arranha-céu paulistano. Um incêndio que iniciou-se no 5º andar do prédio rapidamente alastrou-se pelos demais andares.

Apesar do desespero o Corpo de Bombeiros conseguiu agir rapidamente e resgatou quase a totalidade das pessoas que ali estavam, sendo que muitas conseguiram deixar o prédio antes, pela porta principal.

Entretanto, já comprometido pelo mau uso e abandono de anos, o prédio foi tomado pelas chamas que chegaram inclusive a atingir duas construções vizinhas. Pouco tempo depois o Edifício Wilton Paes de Almeida viria a desabar, restando apenas escombros, a dor de pessoas que nada tem e o triste problema habitacional de São Paulo ainda mas escancarado.

Quantas outras tragédias como esta ainda terão que acontecer para que nosso problema habitacional seja encarado de frente ? Estima-se que só no centro da capital paulista existam 22 mil imóveis desocupados.

DADOS: EDIFÍCIO WILTON PAES DE ALMEIDA
  • Projeto: Roger Zmekhol
  • Construção: Morse & Bierrenbach
  • Ano do início da obra: 1961
  • Conclusão: 1968
  • Andares: 24
  • Área do terreno: 650 m²
  • Área construída: 12.000 m²
  • Tombamento: 1992
  • Desabamento: 2018

NOTAS:

1 – O moderno Edifício Mendes Caldeira, contemporâneo de Andraus, Joelma e Wilton Paes de Andrade, foi demolido através de uma implosão durante as obras da Estação Sé do Metrô. Sua existência foi breve, de apenas 14 anos.

2 – A Morse & Bierrenbach também foi responsável pela construção de um edifício na Rua Conselheiro Crispiniano que, por décadas, abrigou a famosa loja Museu do Disco. Atualmente este edifício encontra-se vazio nos andares superiores.

3 – Um dos idealizadores do edifício, Sebastião Paes de Almeida foi presidente do Banespa e no governo paulista também atuou como secretário da Fazenda e da Agricultura. No esfera federal foi presidente do Banco do Brasil durante a gestão do então presidente Juscelino Kubitschek. Posteriormente presidiu a Cosipa e ainda seria eleito deputado federal.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

  • O Estado de S. Paulo – 12/05/1979
  • O Estado de S. Paulo – 03/07/1965
  • O Estado de S. Paulo – 28/02/1961

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