“É só legalizar”: Nem da Rochinha e a solução para a violência urbana. Por Marcos Sacramento

Nem da Rocinha

A violência provocada pelo tráfico de drogas só cairá quando os responsáveis pelas políticas públicas ouvirem os especialistas das ruas. Gente que conhece a realidade do comércio de entorpecentes porque fez ou faz parte dele.

É o caso de Antônio Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, condenado à prisão por tráfico de drogas, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Em entrevista ao El Pais Brasil, Nem defende a legalização das drogas como forma de enfraquecer o tráfico e consequentemente a espiral de violência que ele acarreta.

“Quer tirar todo o poder do traficante? É só legalizar”, afirma Nem, com a autoridade de quem comandou o tráfico na Rocinha, no Rio de Janeiro, chegando a movimentar 15 milhões de reais por mês.

Na entrevista, o ex-traficante destaca a importância de investimentos em ações sociais em vez da pirotecnia das operações policiais ou do emprego do Exército. “O problema é que eles sabem que não serão reeleitos se fizerem isso. Sabem que isso exige um investimento em educação e políticas sociais que não têm retorno na urna, no curto prazo, mas que é algo para o médio prazo, para daqui a dez ou 15 anos. A preocupação maior é o mandato, não é resolver nada”.

Embora pareça óbvia, a constatação de Nem da Rocinha diverge da maioria dos engravatados envolvidos com assuntos de segurança pública. De vereadores de lugarejos do interior ao presidente da República, passando por juízes e promotores, há quase um consenso no emprego de métodos punitivos e ineficazes para combater o tráfico.

Quando pensam em medidas preventivas, limitam-se a oferecer escolinhas esportivas ou cursos básicos de informática, como se passar algumas horas jogando bola ou operando um computador afastasse automaticamente os jovens dos riscos e vantagens do tráfico.

Não levam em considerações os problemas estruturais comuns em comunidades dominadas pelo crime organizado: ocupação desordenada, falta de saneamento básico, escolas públicas e unidades de saúde precárias e inexistentes, transporte público caro, desconfortável e sucateado.

Ignoram, também, os valores por trás de jovens sem a mínima perspectiva de ascender socialmente por meio do estudo e acostumados a ver amigos morrendo antes dos 20 anos.

Quem dá a pista de como os projetos precisam ser conduzidos é Carl Hart, acadêmico mas com sólida vivência nas ruas. Antes de se tornar neurocientista e professor da Universidade de Columbia, Hart foi um adolescente pobre da periferia de Miami.

Traficou maconha e conviveu com dependentes de crack. Sua trajetória de vida e seus estudos sobre dependência química estão no livro “Um Preço Muito Alto”. Um trecho, elucidativo, mostra os equívocos de apostar apenas em bala ou bola para combater o tráfico.

“Embora os riscos envolvidos na venda de crack, superficialmente, não pareçam valer a pena, em vista dos ganhos obtidos, para muitos jovens ela ainda se afigurava como a melhor saída. Nas cadeias de fast-food e outros empregos de baixa remuneração, esses jovens teriam de usar uniformes desajeitados e se submeter a um tratamento muitas vezes humilhante por parte de patrões e clientes (em geral) brancos, cumprir horários rígidos e com poucas chances de progredir. Mas a venda de crack permitia escolher horários, oferecia a possibilidade de trabalhar com amigos e abria caminhos bem visíveis para o sucesso, além de melhor status entre conhecidos e potenciais namoradas”.

De acordo com o texto de Hart, a opção de entrar para o tráfico não se explica somente por razões econômicas, mas também por sentimentos de autoestima e de pertencimento.

Dois conceitos ignorados pelos burocratas da segurança pública, que insistem em combater o tráfico com fuzis e tanques.

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