E se os Beatles fossem brasileiros?

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Nós conhecemos bem a história dos Beatles. Ou a maioria de nós, fãs de música, conhece. Foram, ao todo, 6 meninos de Liverpool; o Paul conheceu o John num show de sua banda da época; o George ia para a escola no ônibus junto com o Paul; o Stu era o baixista e deixou a banda para que o Paul assumisse o baixo; e o Ringo entrou no lugar do Pete Best, considerado ruim pelo produtor.

O caminho que percorreram para chegar no topo do mundo foi trilhado entre Liverpool, Hamburgo, Londres e, finalmente, a “América”.

Mas e se esses caminhos tivessem sido percorridos no Brasil? Quais diferenças culturais e práticas haveria? John, Paul, George e Ringo. João, Paulo, Jorge e… bem, Ringo. É Richard (Ricardo) mas o apelido seria Ringo lá ou cá.

Ringo é o mais velho. Nasceu em 1940 no subúrbio da cidade portuária de Santos. Filho único dos Starkey, foi uma criança meio doentinha. Era pobre, e seu pai deixou a família. Teve uma crise aguda de apendicite aos 6 anos. Após retirar o apêndice, contraiu peritonite. Ficou em coma por três dias.

Em Santos, 1946, um Ringo pobre, sem pai, em coma com peritonite… morreu. E saiu nos jornais, porque a mãe morreu junto.

“Eu li as notícias de hoje, rapaz”, disse a tia de João. Ele é o segundo mais velho. Nasceu em 1940 também, três meses depois de Ringo. O pai era um marinheiro que mal ficava em casa; a mãe, abandonou a família para ficar com outro homem. Passou a viver desde muito cedo com a tia, mas se reconciliou com a mãe ainda adolescente.

Ganhou seu primeiro violão em 1956. Perdeu a mãe em 1957, atropelada. No mesmo ano, montou um grupo de samba com os colegas de escola. Numa apresentação, conheceu Paulo, com quem montaria um novo grupo.

Paulo nasceu em 1942. O pai era bombeiro e a mãe, enfermeira. Paulo tem um irmão mais novo, Michel, com quem se dá muito bem. A família morava no subúrbio de Santos, próximo a Cubatão. Ia de ônibus à escola.

Seu pai era músico amador. Tocava trompete e piano. Era fã de jazz. Deu ao filho um trompete de presente de aniversário, mas ele trocou por um violão na loja. Aos 14 anos, Paulo perdeu sua mãe. Aos 15, conheceu João. A perda recente de ambas as mães seria um elo entre os garotos. “Vamos fazer uma banda?”, ele pergunta. “Bossa Nova. É o que estão tocando no Rio, em São Paulo, na Bahia. É meio samba e meio jazz. Eu tenho o violonista ideal – ele vai para a escola no mesmo ônibus que eu”.

É Jorge, o mais novo do grupo. Nascido em 1943, estudava na mesma escola de Paulo. Na família, mais três irmãos. A mãe era uma grande fã de música. Em 1956 teve uma epifania ouvindo o álbum de Inezita Barroso. Pediu um violão de presente e, obcecado, tornou-se muito bom no instrumento.

Paulo o introduziu a João. Eles fizeram um grupo de Bossa Nova. Foram a Salvador, pela riqueza cultural de carona num navio que deixava o porto de Santos. Passaram algum tempo lá. Depois voltaram a Santos. Depois foram para São Paulo. Depois para o Rio. Passaram por muitas dificuldades, com sucessos esporádicos. Escreveram, já mais velhos, Praia da Enseada Para Sempre, seu grande sucesso, que fez parte de uma das últimas novelas da TV Tupi.

Depois, desanimaram e desfizeram o grupo. Não se sabe ao certo porquê. Sabe-se que houve um entrevero entre João e Paulo. João não suportava a política feita para agradar os donos de emissoras. Se recusava a participar. Devolvia prêmios. Casou-se com uma artista, filha de imigrantes japoneses, e mudou-se para o bairro da Liberdade, em São Paulo, onde liderou manifestações contra a ditadura.

Já Paulo era menos combativo, e teve a carreira posterior ao grupo de maior sucesso entre os três. Fez trilhas de diversas novelas, se aproveitando de um nicho que acabaria se tornando grande no país.

João acabou morrendo, vítima de um fã lunático, bem na frente do edifício onde morava. Jorge se mudou para a India. Morreu não há muitos anos, vítima de câncer. Paulo, vive hoje de shows no circuito do Sesc, de projetos de Lei Rouanet, e, mais recentemente, de Crowdfunding no Catarse.

Eles jamais conheceram Ringo.

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