“É o começo do fim das grandes redes de TV”: Kevin Spacey fala de ‘House of Cards’, política e internet

 

Como a estrela de série dramática favorita do presidente dos EUA, Kevin Spacey está ciente de que seu trabalho em “House of Cards” é um dos momentos mais importantes de sua carreira. Ele é hoje o rosto de uma revolução na geração de um conteúdo que está sendo entregue on-line para uma audiência de massa via, principalmente, Netflix.

Amparada pelo carisma de Spacey, pelos scripts tensos e emocionantes e pela direção de David Fincher (“A Rede Social”, “Os Homens que não Amavam as Mulheres”), “House of Cards” tornou-se uma sensação internacional.

“É o início de uma nova idade de ouro para os seriados”, diz ele. “Agora você pode ter personagens complexos, que não são, talvez, do tipo que você costumava ver na TV. O público está esperando mais inteligência, mais tons sombrios, humor negro, e um antiheróis como protagonistas”.

Kevin Spacey foi um dos atores mais famosos do mundo, com sua performance vencedora do Oscar em “Beleza Americana”. Então, em 2003, ele assumiu o cargo de diretor artístico do lendário teatro Old Vic, em Londres, para onde se mudou. Manteve alguns laços com Hollywood, mas de maneira mais discreta.

“House of Cards” foi uma virada em sua vida. Recebeu indicações para o Emmy e o Globo de Ouro por sua atuação na primeira temporada. É também o produtor executivo. A segunda temporada já está disponível na Netflix. O canalha Francis (ou Frank) Underwood continua pronto a fazer qualquer coisa pelo poder. Spacey falou sobre seu papel, a internet e os intestinos da política.

Qual é a sua perspectiva sobre seu alter ego, Francis? Ele é o mal? Ele é realmente um vilão?

Ele é um personagem maravilhosamente diabólico. Eu não tento julgá-lo e não o vejo como vilão, mas como uma figura muito dinâmica e carismática. Minha mãe era uma grande fã da série original da BBC [na qual “House of Cards” foi inspirada] e, quando eu comecei a assistir, imediatamente amei como Frank podia ser perverso e engraçado, especialmente à luz do fato de que ele foi vagamente baseado em Ricardo III e Iago. É ótimo ter um personagem da TV que é um político manipulador e cruel. Mais ou menos como eles são na vida real…

Você se enxerga entrando na política?

Não. Eu quero ter um objetivo. Eu acho que seria impossível fazer qualquer coisa na política. Você quase tem que ser um filho da puta maquiavélico para fazer qualquer coisa, me parece.

O que você acha de políticos sedentos de poder, como Francis?

Eu respeito os políticos que podem ser crueis às vezes, mas pelo menos são eficazes e conseguem fazer um trabalho importante. É por isso que gosto do filme “Lincoln”, além do notável desempenho de Daniel Day-Lewis. Spielberg e Day-Lewis mostram Abraham Lincoln, o presidente mais santificado dos EUA, como um político hábil e eficiente, disposto a fazer o que fosse preciso para acabar com a escravidão. Ele estava dando cargos para em troca de votos para seu projeto. Agora, se isso acontecesse hoje, seria um escândalo.

As séries estão melhores que o cinema?  

A Netflix foi o único lugar que realmente acreditou em nós e naquilo que queríamos fazer. Essa atitude e essa ousadia vêm mudando a paisagem das séries de TV nos últimos anos.

Eu acho incrível que seriados como “Mad Men” e “Breaking Bad” atropelem esses blockbusters que custam centenas de milhões com produções na faixa de US$ 40 ou US$ 50 milhões. O antigo estigma de que bons atores de cinema não fazem televisão desapareceu.

 

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Haverá mais séries produzidas para a Internet?

Tenho certeza de que vamos ver muito mais séries financiadas e lançadas desta maneira. É o que se passa na frente da câmera – o conteúdo – que é o mais importante. Estamos agora na fronteira de encontrar novas formas de entregar esse conteúdo e isso vai sacudir a indústria.

Temos visto há algum tempo que os filmes e as séries estão sendo consumidos de maneira radicalmente diferente. As gerações mais jovens fazem as coisas instantaneamente, o que inclui a programação de entretenimento. Todos os episódios de “House of Cards” foram postos no ar de uma vez. As pessoas descobriram que existem vantagens de estar no controle do conteúdo de que querem desfrutar. As pessoas gostam de estar no comando, em vez de depender de programadores de redes de televisão.

É o equivalente a ter um romance sobre a mesa de sua casa. Você o apanha e lê quando e como quiser – no sofá, na cama ou na praia. A mesma coisa se aplica à forma como as pessoas assistem TV. Você não precisa esperar por uma quarta-feira às 21:00 para ver seu programa favorito.

“House of Cards” é o começo do fim da TV como a conhecíamos?

O declínio das grandes redes de TV é um processo que se iniciou há muitos anos. Elas são confrontadas com o desafio de responder à produção de séries inteligentes e criativas e vêem sua audiência diminuir. As mentes mais brilhantes e criativas podem usar a internet para aparecer. As câmeras estão ficando menores e mais baratas e, no fim das contas, o que importa é o que se passa na frente da lente. Para o público, a plataforma simplesmente não importa mais.

No próximo ano, você deixará seu posto como diretor artístico do Old Vic, em Londres, depois de 12 anos. Como foi essa experiência?

Mudar para Londres e assumir esse cargo foi a melhor decisão que já tomei na minha vida. Foi uma coisa extraordinária. O teatro sempre foi o núcleo da minha experiência como ator e me tornar um diretor era um sonho meu.

Para um ator, o teatro é fundamental. É preciso energia de um atleta para estar de pé toda noite, com sete ou oito apresentações por semana, durante 20 semanas consecutivas. Na TV ou no cinema, você nunca apreende todo o arco narrativo de uma história ou de um personagem.

Pretendo voltar ao cinema mais tarde. Há alguns diretores com quem gostaria de trabalhar. Escrevi uma carta para Woody Allen recentemente. Apresentei-me como um ator do qual ele possivelmente não ouviu falar e lhe presenteei com uma assinatura da Netflix para que pudesse ver minha série.

O mais incrível é que ele me escreveu de volta!

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