É desserviço considerar a morte de Marielle um crime de ódio racial, sexual e de gênero. Por Samuel Silva Borges

Marielle Franco

Publicado no Facebook de Samuel Silva Borges

Muito decepcionado com o ato que teve na Câmara em homenagem à Marielle.

Não sei bem como isso é possível mas parece haver uma grande discordância entre setores da militância sobre o significado político da execução dessa militante.

Mas vamos lá.

Marielle era uma militante comprometida com várias causas. Muitas atreladas à sua vivência de algumas opressões. Como a gênero, a sexual, a racial e a de classe.

Longe de ser um símbolo de representação apenas simbólica, Marielle debatia cada uma dessas questões para além da própria vivência, entendendo o caráter sociológico das mesmas e tentando transformar a realidade que possibilita essas opressões.

Era ativa nos movimentos sociais e ingressou na organização partidária para fortalecer as lutas cotidianas. É exemplar da representação substantiva.

Eu acho que é plausível cogitar que ela ser uma mulher negra lésbica da periferia pese como um fator para sua execução. No sentido que as pessoas que vivenciam esse conjunto de opressões estão na base da hierarquia social, contando com menos prestígio.

Quer dizer, no senso comum brasileiro, marcada por cada uma dessas opressões, a violência contra uma pessoa como ela escandaliza muito menos, é muito mais normalizado, do que contra um ‘João Hélio’, vindo do que se consideraria a família tradicional brasileira, branca, de classe média, ‘pura’.

Mas não, esses tão longe de serem os fatores determinante para a execução de Marielle. São secundários e devem ser tratados enquanto secundários.

Ela não foi morta por ser mulher. Ela ser estruturalmente oprimida por seu gênero não faz que qualquer tipo de assassinato possa ser classificado como feminicídio, que é o tipo de homicídio ocorrido especificamente por questões de gênero. Da forma que falavam no plenário, parecia que ela foi vítima de violência doméstica, e não da polícia/milícia.

Ela não foi morta por ser lésbica. Ela ser estruturalmente oprimida por ser lésbica não faz que qualquer tipo de assassinato possa ser classificado como lesbofóbico.

Ela não foi morta por ser negra. Ela não foi morta por vir da favela. Ela não foi morta por ser de um partido socialista.

Ela poderia ser morta por cada uma dessas opressões e lutas. É uma possibilidade real e lembrar dessas vulnerabilidades é válido. Mas isso é diferente de extrapolar esses fatores como se eles tivessem sido os principais por trás do seu assassinato.

Por que ela foi morta então?

Ela foi morta por ser uma militante extremamente corajosa, comprometida e combativa contra a violência do Estado. Ser crítica das arbitrariedades seletivas da polícia e do sistema prisional.

Por criticar a guerra às drogas, a criminalização da pobreza e o genocídio da juventude negra. Por denunciar o entrelaçamento entre tráfico, milícia e polícia. Por ser uma vereadora inconveniente no contexto de uma intervenção federal militarizada.

Ela foi morta por ser subversiva. Por ameaçar as estruturas de poder locais, regionais e até nacionais.

Portanto, considero um desserviço ao seu legado de luta contra a militarização da segurança pública enquadrar seu assassinato como um crime de ódio racial, sexual e de gênero, como bradou Maria do Rosário.

Acho que no contexto imediato à sua morte, as falas no plenário deveriam denunciar as milícias e como o tráfico e o crime organizado elege bancadas, prefeitos, governadores e mantém influência no judiciário, na promotoria e até no exército para garantir que se mantenha os esquemas como estão. E que aqueles que denunciem esse tipo de criminalidade do sistema político arrisquem morrer por isso.

Retirar isso do centro da discussão da sua morte é despolitizante. E contribui para manter as coisas como estão, silenciando e vitimizando mais pessoas como a Marielle.

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