Dzi Croquettes, o grupo de teatro mais transgressor do Brasil, em tempos de Temer e Trump. Por Zambarda

dzi croquettes

 

Em 1972, um grupo de teatro sacudiu a capital paulistana no extinto Teatro Treze de Maio. Dzi Croquettes estreou, escandalizou o regime e levou homens a se travestirem com roupas femininas.

Aquela era uma das nascentes dos movimentos gay, trans e bissexual entre os jovens. A peça fez tanto sucesso que seu público passou a se vestir como os atores no palco.

O grupo foi censurado e seus integrantes se exilaram. Reestrearam a peça em Paris, ainda nos anos 70.

Eles se transformaram em referência para músicos e artistas brasileiros. Ney Matogrosso, na época no Secos & Molhados, Miguel Falabella e Cláudia Raia são fãs. Eles falam sobre essa influência num bom documentário de 2009 dirigido por Tatiana Issa e Raphael Alvarez.

O espetáculo voltou em 2012, no Rio de Janeiro, permanecendo em cartaz por três anos. Em 2015, retornou às suas origens em São Paulo, no teatro João Caetano, a convite da Secretaria de Cultura na Virada Cultural.

Para não deixar a semente da transgressão sexual e política morrer, Ciro Barcelos, gaúcho e integrante do grupo original, decidiu comemorar em São Paulo os 45 anos de aniversário da peça.

O Dzi Croquettes refeito pela Miraklo Produções estreou no dia 3 de novembro e vai até 15 de dezembro no Teatro Augusta, com ingressos de R$ 40 (meia entrada) até R$ 80.

O musical traz referências ao glitter rock com a capa de Lou Reed no disco Transformer (1972) no cenário, além de performances revisitadas das músicas de Elis Regina, como “Dois Pra Lá, Dois Pra Cá” e “Amor Até O Fim”.

O novo Dzi Croquettes é composto por 10 bailarinos e atores. Além do próprio Ciro Barcelos, Bruno Gissoni, Rodolfo Goulart, Filipe Ribeiro, Rafael Leal, Paulo Victor Gandra, Julio Aracack, Rogério Nóbrega e Lucas Cândido.

Na apresentação, os intérpretes tiram sarro de figuras como Eduardo Cunha, Jair Bolsonaro, Donald Trump e a Rede Globo. “Um certo deputado Cunha foi visto aos beijos com Trump na saída de um teatro”.

A correspondente Ilze Scamparini da TV Globo se transforma em “Ilze Campainha”. Nem William Bonner é poupado, na sua “imparcialidade parcial”.

Os atores vestem peças femininas, tiram sarro da plateia e se trocam dentro e fora do palco. Uma exposição do Dzi Croquettes original está em exibição no Teatro Augusta no mesmo ritmo de comemoração.

“A remontagem da peça se deu pelo sucesso do documentário e por influência da minha filha. Vejo que o Dzi Croquettes é necessário nos tempos atuais, em que a gente vive um moralismo exacerbado e um perigo constante”, disse Barcellos ao DCM.

“Há medo no ar hoje. Nos anos 70, o nosso inimigo vestia verde e era do exército. Hoje ele está ao seu lado, veste como você e traz uma caretice absurda. As artes também estão vivendo um momento muito careta”.

O diretor enxerga que há jovens querendo “viver como seus pais” ao invés de transgredir e evoluir no comportamento, na sexualidade e na inteligência.

Demetrio Gil, o diretor musical, trabalha há 35 anos com Ciro e trouxe influências dos anos 80. “A peça original tinha muito playback, mantivemos algumas características, mas alteramos outras para deixar mais atual. E eu vejo o momento de hoje com muita preocupação com essa ascensão evangélica. O problema dos idiotas é que eles não vencem pela qualidade, mas pela quantidade. E não é algo restrito ao Brasil, caso contrário nós não veríamos alguém como o Trump assumindo a presidência”, afirma.

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