Doria quer dar à pichação o tratamento que os nazistas deram à “arte degenerada”. Por Sandro Cajé

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Sandro Cajé, professor, produtor multimídia, mestre e doutorando em Estética e História da Arte, enviou o seguinte artigo ao DCM.

 

Assisti pela televisão o João Doria dizendo que pretende acabar com os pichadores de São Paulo. Uma fala agressiva, estúpida e que explicita a absoluta incompetência do prefeito eleito para a compreensão da arte.

Doria se vende como empresário, comprou um avatar de trabalhador e agora se apresenta como polícia das artes. Um homem sem consciência histórica, na verdade. Pensa e age como os curadores da Entartete Kunst, ou Exposição de Arte Degenerada, ocorrida em Munique, em 1937.

Assim, Doria segue John Lindsay, o prefeito de Nova York que declarou guerra aos pichadores há quase 50 anos. Inevitavelmente também será derrotado e, tal como ocorreu na América do Norte, a declaração de Doria tem um efeito contrário: estimula ainda mais a prática do pixo, o que considero importante sob vários pontos de vista.

O pixo é uma arte de resistência, de resgate, de cidadania, do espírito, do que resta de humano em nós. É a arte mais autêntica praticada pelas sociedades modernas. É a arte mais refinada praticada pelas sociedades industriais.

É a arte que permanece viva desde as nossas mais remotas ancestralidades. O pixo está nas ruas, hoje, como esteve nas paisagens do mundo quando a humanidade descobriu as formas de se comunicar sem estar presente.

A fala de Doria é apenas preocupante, no sentido de que pode ser compreendida como uma carta branca para promover e intensificar a violência dos policiais e dos “cidadãos de bem” contra os pichadores. É apenas isso o que me preocupa.

Eduardo Kobra, ao rechaçar qualquer participação na “entartete kunst doriana” e demonstrar seu respeito e afeto pelos pichadores, se afirma como um grande artista, como um grande homem e como um sábio.

Quero manifestar aqui minha reverência imensa a Eduardo Kobra, que encheu meus olhos de alegria quando vi pela primeira vez um mural lindíssimo de sua autoria na Avenida Rebouças, há quase 20 anos.

Não vou mencionar aqui o nome dos amigos pichadores que estão na ativa e sei agora que fiz bem em preservar suas identidades quando produzi minha pesquisa de mestrado.

É de conhecimento geral que o artista Djan Ivson é o principal porta-voz dos pichadores de São Paulo e é a ele que me dirijo para dizer que “estamos juntos”.

Você é o artista contemporâneo mais importante do Brasil e não é um prefeito ou um governador coxinha que vai impedir a arte dos que não se rendem às práticas vazias e mortas que a classe média bota em galerias e museus.

O pichador é a arte viva, caminhante, escalante, escrevente, caligrafante. O pichador é “a pimenta do planeta malagueta”, como perceberam Jean Baudrillard, Norman Mailer, Eugéne Atget, Brassaï, Antoni Tápies, Jean Dubuffet, Picasso, Miró, Paul Klee, Paulo Leminski, Sergio Miguel Franco, Alex Vallauri, Artur Matuck, Hudinilson Junior e muitos outros artistas intelectuais. Ou seja, o pichador é o poeta por excelência.

João Doria é uma personagem que será esquecida em poucos anos. O pixo, essa arte que nos questiona, sobreviverá à política degenerada desse Jânio Quadros zumbi que assume a prefeitura de São Paulo em janeiro. O pixo está nas paisagens há mais de 100 mil anos.

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