Dois jornalistas num pub em Mayfair

Com o Mestre, em Londres

ÉRAMOS DOIS JORNALISTAS brasileiros ali no pub em Mayfair. No passado, trabalhamos juntos muitos anos. Fazia tempo que não nos víamos, e ali era um bom lugar para o reencontro entre dois camaradas. Pubs são feitos, em parte, para tomar pint, páinte, cerveja, e em parte para conversar. Ouvir  piada, contar, eventualmente até comer alguma coisa. Fumar dentro é proibido, e então os fumantes enfrentam temperaturas brutas pelo cigarro ali na frente dos pubs. Em bares e restaurantes londrinos você encontra gente com laptops ou celulares que funcionam como extensão do escritório, mas não nos pubs.

Tinha me atrasado um pouco para o encontro, no hotel em que ele está. O hotel fica, oficialmente, na New Bond Street, mas na verdade a New Bond Street está ali adiante, a alguns metros. Tinha pedido, antes, informação a uma pedestre, e vi que ela tinha um GPS na mão, um aparelho que orienta quase todos os táxis europeus, mas era a primeira vez que via uma pessoa com ele.  A mulher me avisou que estava indo para o mesmo local que eu. Disse então que ia segui-la, mas os passos apressados das londrinas são difíceis de acompanhar, e desisti. Enfim cheguei. Do hotel para o pub imediatamente.

“Coisas de Londres, um hotel cujo endereço é New Bond Street mas que, na verdade, não fica na New Bond Street”, me diz o jornalista. Perdi meu pai cedo, e acabei encontrando na vida dois ou três caras a quem procuro e ouço nos momentos em que ligaria para papai. Estou diante de um deles, caminhando no frio ainda agradável do outono londrino. Mayfair é uma área bonita e elegante de Londres, cheia de lojas finas, restaurantes e bares. É ali que mora Margaret Thatcher, antes a Dama de Ferro, hoje uma viúva solitária às voltas com problemas mentais provocados por pequenos derrames.

“Londres não tem número”, diz o jornalista, sorrindo. “É uma coisa impressionante.” Tem, a rigor, mas é quase como se não tivesse. Os números nas ruas de Londres estão muito bem escondidos. Comento a diferença, nas placas, entre Londres e Berlim, de onde eu voltara fazia algum tempo depois de uma missão jornalística. Não há como se perder em Berlim. Os números são visíveis e as placas, muitas, são extremamente detalhadas. Mesmo um idiota topográfico ao meu estilo não se perde em Berlim. Placas em todos os lugares avisam onde você está e dão a distância de alguns lugares importantes. “Zoológico a 200 metros”, diz uma placa que aponta para o lado esquerdo. “Museu Helmut Newton”, diz uma placa que aponta para o outro lado. Os múltiplos relógios públicos de Berlim, em perfeito funcionamento, também ajudam você a se localizar.

“Saúde”, ele me diz no pub. Estamos no andar de cima, uma vez que no térreo não havia mesa disponível. Epicuro dizia que a felicidade maior consiste, antes e acima de tudo, na ausência de dor, e depois de uma certa idade você vê o quanto o velho grego estava certo. Batemos os copos, queremos saúde. Fuma, e como, meu amigo, mas ali no pub não acende um cigarro, até porque sabe que não teria chances de dar a segunda ou terceira tragada antes que alguém lhe mandasse apagar. Dele, um viajante apaixonado, um cosmopolita de corpo e espírito, ouvi certa vez uma frase definitiva sobre a importância de pegar um avião e sair, de tempos em tempos, do Brasil. “Quando você começa a achar as coisas no Brasil muito boas, é hora de viajar”, me disse ele.

JORNALISTAS EM GERAL gostam de exibir conhecimentos que muitas vezes não têm. Pergunte a dez jornalistas se leram Proust, ou Joyce, e provavelmente todos responderão que sim. Aquele é diferente. Sabe muito, é cultivado. Lê compulsivamente livros em paperback, pela facilidade em segurá-los na cama, frequenta óperas e museus, mas parece sentir prazer em dizer diante de muitas perguntas: “Não sei”. Estou ali com ele, na segunda pint, e rio comigo mesmo ao ver nele a ênfase e os maneirismos tão imitados por jornalistas que trabalharam com ele. Por alguns segundos, é como se todos os imitadores estivessem ali, diante de mim, no pub de Mayfair.

Tem a virtude do ceticismo. Recentemente enviei a ele, por e-mail, um artigo do qual gostara. Um jornalista americano pegara A Riqueza das Nações, de Adam Smith, e construíra ali, com trechos escolhidos, uma ‘entrevista’. Meu amigo foi checar as respostas, e viu que de fato tudo saíra de Adam Smith. “Engraçado aquele trecho em que o Adam Smith diz que os donos de negócios sempre afirmam que vai acontecer algum problema na economia se os salários dos empregados subirem, mas nunca vêem problema nenhum se o dinheiro deles mesmos aumentar”, ele comenta. “Veja bem: Adam Smith, não Marx.” Ele sempre defendeu bem o salários de seu time e o seu próprio e, não obstante, raras vezes vi um profissional tão leal à empresa para a qual trabalha.

Falamos em livros. Conto a ele que li recentemente um que me impressionou, Human Smoke, de Nicholson Baker, um aclamado romancista americano que fez sua estréia na não-ficção. Human Smoke, Fumaça Humana, é um tributo aos pacifistas que, em vão, gritaram antes que a Segunda Guerra Mundial eclodisse. Teve muita repercussão na Inglaterra, uma vez que Baker bate duro em Churchill, um ídolo nacional, em quem vê um anti-semita elitista e beligerante que acelerou quando poderia brecar no final dos anos 30 e talvez evitar o morticínio sem paralelo que viria até 1945.

“Os alemães são loucos para perder guerra”, ele diz. “Começam e bem e sempre perdem. O Claudio Abramo gostava de dizer isso.” Claudio Abramo foi um grande jornalista de São Paulo nos anos 50, 60 e 70, um homem bonito e carismático, temperamental, cabelos compridos e caprichosamente desalinhados, que na meia idade usava uma bengala que a mim, garoto, parecia mais decorativa do que funcional. Teve passagens marcantes nos dois principais jornais da cidade, e parecia não ter nascido para fazer outra coisa que não fosse chefiar redações com a veemência, a paixão típica dos que exercem essa função. A Era Politicamente Correta ameaça fazer de tipos como Claudio Abramo pandas do jornalismo, espécies em extinção.

Uma mulher asiática de meia idade nos interrompe ali no pub. Quer saber se servem ali em cima. Parece estar esperando há um bom tempo, e resolveu tirar enfim a dúvida. Servem, mas, como em todo pub, você tem que fazer o pedido e pagar na hora ali embaixo, no balcão. Não há garçom que tire pedidos em pubs. Ela parece desapontada e volta para sua mesa. Meu amigo parece ligeiramente contrariado com a interrupção.

“E a história da France Telecom? Que absurdo”, digo. Duas dúzias de pessoas se suicidando por causa do trabalho em menos de dois anos é um horreur. Uma apenas é bastante para você jamais esquecer. “Você não sabe como pesa um morto”, dizia o avô de García Márquez ao neto, a quem chamava de Pequeno Napoleão. O avô tinha matado um homem jovem num duelo. Um suicida na redação em que você trabalha pesa muito também. No final dos dos anos 80, eu redator-chefe, algumas pessoas entram nervosas em minha sala numa madrugada de fechamento. Um repórter cortara os pulsos no banheiro. Um rapaz inteligente, alto e simples, cabelos penteados para o lado, oriundo de uma família pobre. Viera da Gazeta Mercantil, à época um jornal amplamente admirado, ainda que enfadonho, de economia e negócios. Tinha pouco menos de 30 anos e nada em seu comportamento parecia indicar tendência suicida. Era bem humorado e risonho, o oposto de uma colega mais velha que entrou na história e no folclore da revista ao reclamar até de um aumento. Amigos o levaram prontamente ao hospital. Lembro as manchas de sangue no banheiro na manhã seguinte, e ainda mais o pano no pulso com que o repórter retornou, alguns dias depois, à redação. Os colegas se empenharam fortemente para ajudá-lo, lembro. Deram a ele tratamento de filho ou irmãos mais moço. Pouco tempo depois, no meio de uma tarde, chegou a nós a informação de que ele se atirara do Viaduto do Chá.

“Não conhecia essa história”, ele me diz ali no pub, depois de ouvir com atenção. Provavelmente na época ele estivesse num sabático que durou quase um ano. São poucos os jornalistas que fazem sabático, mas este meu companheiro de pint no pub é um tipo escasso mesmo. Maior do que parece num primeiro olhar, enquanto muitos jornalistas são menores do que parecem mesmo depois de vários olhares. Tempo de partir. Tenho que terminar uma longa reportagem sobre o Muro de Berlim, que sai neste sábado. “Não gosto de escrever palavras em inglês nos meus textos impressos”, observo. “Eu também. Sempre existe uma palavra em português adequada ao que você quer dizer”, ele diz. Me conta, rindo, que tem visto nos jornais e revistas parisienses palavras como trend, fashion e outras, e é preciso lembrar que os franceses são ou foram sempre alérgicos ao inglês. Pergunto a ele se se lembra de um artigo que escrevi, numa edição especial dos 100 anos da República, em 1989. Era sobre um purista, um latinista que queria limpar o português de anglicismos e galicismos, e escreveu um livro com alternativas 100% brasileiras às palavras estrangeiras. Castro Lopes era o nome.  “Lembro sim”, ele responde. “Ele não queria chamar o futebol de ludopédio?” Sim. Também queria que piquenique fosse convescote, turista ludâmbulo e repórter alvissareiro. Calçada, em vez de boulevard, e roupão, substituindo pegnoir, Castro Lopes emplacou.

Bem, nos abraçamos na porta de seu hotel na New Bond Street que na verdade não fica na New Bond Street. “Você é um mestre para mim”, digo. Diante de mim está provavelmente o maior jornalista de sua geração, e um dos maiores de todos os tempos, um homem que elevou o nível do trabalho feito nas redações brasileiras com sua visão clara, capacidade de resolver problemas em vez de criá-los e uma prosa de classe internacional. Já disse isso muitas vezes a ele, mas gosto de repetir quando o reencontro. Nestes casos, melhor sobrar do que faltar. Nos despedimos e, ao caminhar para a Piccadilly Street, onde o 14 me levaria confortavelmente para a Putney Bridge, penso que uma das melhores coisas que acontecem a você quando está fora de seu país é encontrar um amigo.

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