Do nosso enviado especial à Cracolândia: a brutalidade policial pode ter arruinado uma boa iniciativa

A Cracolândia na quinta, antes de a polícia chegar
A Cracolândia na quinta, antes de a polícia chegar

 

Na tarde da quinta-feira, 23, viaturas do Denarc aterrissaram de surpresa na rua Barão de Piracicaba, no centro de São Paulo, causando espanto inclusive no secretário de segurança, Roberto Porto, e uma operação truculenta de caça foi iniciada sem que tenha ficado claro quem eram os procurados.

Seriam traficantes?

No corre-corre e em meio a bombas de gás, ninguém sabia o que estava ocorrendo. Tudo indica que tenha sido em função de uma confusão menor, envolvendo uma pedrada em uma viatura horas antes. A Polícia Civil alega que houve resistência por parte dos “suspeitos” e de usuários de drogas. Policiais contam que foram atacados com paus e pedras e que carros foram depredados.

Dez carros da Civil cercaram o local, fecharam dois quarteirões e começaram a lançar bombas de efeito moral. Cinco pessoas foram detidas. A pancadaria durou perto de 20 minutos, meia hora. Correria, gente pisoteada, o caos.

Revanche simples.

Estará tudo perdido?

Antes da operação policial, e uma semana após o início da operação na região da cracolândia no centro de São Paulo, o DCM visitou a área. Já era possível enxergar um pouco melhor após a baixa da poeira levantada com o derrubar dos barracos, e notar algumas perspectivas. Algumas boas, outras nem tanto, mas de um modo geral o clima era bom na parte “da frente”.

Foi uma boa surpresa ver que o número dos que aderiram ao projeto e iniciaram os trabalhos de varrição não reduziu. Visivelmente melhor alimentados, tinham uma aparência mais saudável e um andar menos trôpego. Por volta das 11h uma grande fila já se formava em frente ao Bom Prato, onde as refeições são servidas (para quem não faz parte do programa, o custo é de 1 real).

Há otimismo entre aqueles que estão determinados a mudar, mesmo reconhecendo as dificuldades. “Usei crack esses dias, não vou mentir, mas agora fico até dois dias sem usar sendo que antes não suportava mais que uma hora. E dormir num lugar que não molha é muito bom. Essa opção é a melhor que fizeram para nós, todo esse povo aí era para estar lá no meio do fluxo a essa hora, mas estamos ocupados com alguma coisa”, disse Paulo, 34 anos, que era padeiro e estava há quatro anos vivendo na rua.

Sem ser uma ocasião em que a imprensa tenha sido previamente avisada, aquelas do tipo photo op, foi igualmente animador flagrar dois secretários da prefeitura (Roberto Porto e Luciana Temer, da Assistência e Desenvolvimento Social) presentes e atuantes, atendendo diretamente as pessoas, ouvindo queixas e pedidos para novos cadastramentos e vagas (as reclamações giram sobretudo das instalações dos hotéis).

“Sabemos que o desafio é imenso e apenas uma parte do projeto foi iniciado. Nossa proposta era que antes de mais nada eles topassem aderir ao projeto e isso foi muito bem aceito. Eles estão disponíveis para trabalhar, então essa primeira semana foi muito boa mas agora o desafio aumenta que é o de manter essas pessoas aqui, manter a harmonia e inseri-las num programa de saúde bem sério”, me disse Luciana Temer, secretária de Assistência e Desenvolvimento Social.

Muito bem, até aqui avaliei o copo como “meio cheio”. Vamos aos aspectos que o deixam “meio vazio”.

Indo mais para dentro da cracolândia, foi possível perceber que o tal “fluxo” citado pelo quase ex-usuário Paulo, migrou da pracinha do Largo Coração de Jesus para a rua Barão de Piracicaba, no quarteirão da Cristolândia. Apesar do policiamento ostensivo, permitir que o “fluxo” comece a andar pela cidade dificultará a empreitada. Na hipótese de uma dispersão, o projeto ficará restrito apenas aos que já foram cooptados.

O reflexo dessa mudança de endereço traz novos conflitos, anteriormente atenuados pela longa convivência. Coincidentemente ou não, os dois bares da alameda Dino Bueno visitados pela reportagem na semana passada e que não relataram problemas com os usuários de crack, pelo contrário, seriam bons clientes, nesta quinta-feira estavam fechados. Já os comerciantes da rua Barão de Piracicaba não estão nada satisfeitos.

“Está um lixo isso aqui. Limparam lá a praça e aí vieram para cá. O cheiro já está invadindo a loja, o pessoal não toma banho, urina e faz as fezes aí mesmo, clientes não podem mais estacionar aqui, tem bandido aí no meio, está complicado”, declarou Anderson, gerente de um depósito de bebidas.

Sem dúvida as reclamações são procedentes, bem como o escopo de longo prazo merece ser reconhecido. Mas, antes de qualquer coisa, os poderes precisam entrar em acordo.

Depois de mais uma ação desastrada e arbitrária envolvendo polícia, quem poderá saber se tudo for por água abaixo? Qual dependente químico acreditará novamente que a proposta é humanista, de reinserção e tratamento? Quem vai explicar, e se responsabilizar, pelo que acabou de ocorrer?

Fácil ninguém acreditou que seria fácil. Nem rápido. Por que então repetir o erro do passado?

 

O Denarc em ação
O Denarc em ação

 

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