Direita Sem Limite: o vídeo da Escola Sem Partido de uma mãe que ‘perdeu’ a filha para o comunismo. Por Donato

 

Quando pensamos já ter visto de tudo, vem o grupo Nas Ruas e lança um vídeo patético em defesa do Escola Sem Partido. O filme foi postado na semana passada e a empreitada ficou a cargo de um tal Instituto Iniciativa que, em sua apresentação, afirma ter por finalidade ‘apoiar e desenvolver ações para a promoção, defesa e divulgação do pensamento Conservador e o Liberalismo Econômico (assim, com maiúsculas)’.

Com o título “Perdemos nossa filha” e o subtítulo apelativo “O comunismo destruiu os nossos sonhos. Covardes. Acabaram com nossa família”, o vídeo traz uma mãe (Alessandra Morimoto) que presta um depoimento sofrível.

O tom se assemelha ao de programas populares da TV, tipo casos de família, ou aos depoimentos vistos em canais evangélicos.

A mãe (que de saída afirma ser do Rio, mas cujo sotaque está mais para alguém do interior de São Paulo), fã doente de Jair Bolsonaro, conta que tinha uma filha no estilo princesa, dessas que se encaixam nos sonhos – e projeções – da própria mãe. O mundo delas era lindo e maravilhoso, com fadas e pôneis até que…

O vídeo corta para uma tela preta com a inscrição ‘Professora’. Um ser diabólico aproximou-se da princesinha. Em poucos meses, o relacionamento com a professora fez com que a doce menina se transformasse em ‘outra pessoa’.

“Ela começou a se interessar muito por política” (…) “Ela começou a ler livros, como o Manifesto Comunista de Marx, por exemplo”. A mãe não teve dúvidas. Sua filha estava ‘doutrinada’, havia passado por uma ‘lavagem cerebral’.

É peculiar a um ser despolitizado que alguém que comece a se interessar por política passe a ser um extraterrestre ou esteja sendo influenciado, vítima de alguém que ‘esteja fazendo a cabeça’.

Outra característica padrão é o de serem péssimos leitores (isso quando leem). Portanto, quando veem alguém com um livro nas mãos, encaram aquilo como um perigo. Afinal de contas, aquela pessoa irá aprender coisas novas.

Em determinado momento a mãe diz que teve acesso ao Facebook da garota e viu, nas conversas, que era a ‘professora’ quem estava enviando links ‘de cunho socialista’, com assuntos ‘que minha filha nunca tinha aprendido dentro de casa’. E pelo visto iria morrer sem ter aprendido, não fosse a professora mostrar o mundo para sua aluna.

A menina parou de comer carne, criticava o capitalismo, ‘passou a ficar cada vez mais confusa’, diz a mãe que é confusa o suficiente ao misturar comunismo com socialismo com anarquismo. A menina abria sua mente enquanto a mãe nada entendia.

Enfim, os pais resolveram procurar uma psicóloga (!!!!) especialista em adolescentes que ‘confirmou’ que a menina estava sofrendo doutrinação, que tinha sofrido ‘realmente’ uma lavagem cerebral (alguém precisa descobrir que psicóloga é essa urgentemente e exigir esse laudo ou cassar-lhe o registro da profissão).

Como não há nada tão ruim que não possa piorar, a mãe da jovem jogou o conselho tutelar em cima da professora. E, pasmem, surpreendeu-se com o resultado: “Daí tudo piorou”, pois a professora teria ‘abandonado’ a menina.

Segundo a mãe, a adolescente foi presa no dia da abertura da Copa do Mundo, em um protesto. Ser contra a Copa já indica o quanto a menina tem o juízo no lugar.

Em seguida a jovem passou a fazer parte das ocupações (que o vídeo chama de ‘invasões’) de secundaristas em escolas. Novamente se percebe que a garota estava muita sã, ativa e bem informada, do lado certo de quem luta por educação pública de qualidade.

De sua parte, a mãe chora ao dizer que a menina estava assistindo palestras nessas ocupações. Palestras, caros leitores!! Vejam que horror! Talvez o desejo da mãe fosse o de sua filhota estar em casa assistindo novela.

“Um dia ela apareceu, suja, fedida, mas com os ideais socialistas firmes na cabeça. Ela ia mudar o mundo, vestida de mendiga”, diz a mãe que certamente não duvida da existência de Jesus, aquele mendigo.

Causa vergonha alheia o depoimento da mãe, tamanha tacanhice. Em diversos momentos ela afirma que a menina voltou para casa mais de uma vez, que telefonava com frequência, chegou a avisar onde estava morando. Ou seja, nunca deixou de dar notícias e no fim voltou a morar com os pais.

Não aconteceu nada de incomum à adolescência. A fase de questionar, de se aventurar, de ver o mundo, de viver. Nitidamente a garota percebeu que estava sendo lobotomizada em um ambiente imbecilizante e resolveu ganhar asas.

Mas, segundo a mãe, a menina tornou-se um caso perdido: “Continua com um discurso que ‘Cuba não é tão ruim assim’”. Por isso ela faz um alerta para os outros pais: “Eu não sei qual o padrão que eles usam (de lavagem cerebral) mas é muito efetivo!”

Senhora Morimoto, não chore. Tenha orgulho de sua filha. São espíritos como o dela que nos dão pessoas como Paulo Freire, Janis Joplin, Nelson Mandela, Martin Luther King. Já mentalidades como as da senhora nos dão de presente Michel Temer, Bolsonaro etc.

Mantenha a calma, senhora Morimoto. Cuba não é tão ruim assim.

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