Desafios de Guilherme Boulos. Por Aldo Fornazieri

Publicado originalmente no jornal GGN

POR ALDO FORNAZIERI, professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP)

Guilherme Boulos no Roda Viva. Foto: Reprodução/YouTube

“Nada é tão débil e instável do que a fama de poder que não se sustenta na força própria”

Como já se disse em outro artigo, Guilherme Boulos é o único líder de esquerda que se projetou no Brasil após as manifestações de junho de 2013. Junto com Ciro Gomes e Fernando Haddad é um dos poucos líderes do campo progressista que apresenta potencial de adquirir uma dimensão nacional e popular. Enquanto Ciro tem sua grande oportunidade nestas eleições de 2018, Boulos, jovem, com apenas 35 anos, dispõe de tempo para construir e projetar sua liderança. Já, Haddad, um dos políticos mais lúcidos e promissores do Brasil poderá ter seu futuro bloqueado pelo PT, que insiste em não olhar para o futuro. Se isto se configurar como veredicto nesse processo de definições em 2018, Haddad terá que rever suas pretensões ou os seus caminhos.

Embora experiente nas lides políticas, pois é um ativista desde a adolescência, Boulos é um iniciante na ação partidária-institucional, terreno no qual terá que ter muita prudência e astúcia para não soçobrar no lodo que geralmente se forma nessa atividade. Como toda a história o mostra, quem lidera e detém poder corre muitos riscos: riscos da vaidade, da arrogância, do autoritarismo e da capitulação para a ideologia do luxo, o que leva à corrupção.

Para enfrentar esses riscos, nada melhor do que a ideologia estóica do republicanismo que cultiva os valores da frugalidade, da simplicidade, da humildade, da humanidade, da generosidade, combinados com a firmeza de caráter, com a coragem e com a tenacidade da luta. A história é mestra em mostrar que a vaidade, o luxo, a busca do brilho do poder pelo poder levam à corrupção, esta à indolência e a perda das virtudes, com a consequente perda do poder. Boulos nunca poderá se esquecer de uma sábia lição da filosofia política clássica que vem do mundo antigo: a liderança se exerce mais pelos bons exemplos do que pelo poder.

Boulos terá muito mais desafios do que facilidades pela frente. As canções dos caminhos floridos são enganosas e os aplausos frequentes e adulações são inimigos das virtudes da prudência, do equilíbrio e da humanidade que, junto com a coragem, o líder deve ter como guias de suas ações. Essas virtudes morais  são o que há de mais importante para o líder político, pois elas constituem aquelas capacidades e qualidades que formam o seu saber fazer prático – essência da atividade política.

Em política, sempre é conveniente distinguir o saber do saber fazer, pois este último é que determinará se um político é efetivamente líder ou não. Se um líder consegue agregar ao saber fazer prático um saber teórico e histórico tanto melhor, pois somará virtudes morais com virtudes intelectuais, condição que potencializa suas possibilidades de êxito. Pressuposto está aqui que as virtudes devem ser sempre vinculadas aos fins éticos que o líder se propõem como objetivos a serem buscados.

Pelo que Boulos tem mostrado até agora, encaminha-se para somar os dois saberes e os dois tipos de virtudes. À sua experiência de militante e de líder agrega os estudos de Filosofia e de Psicanálise. Bem nascido, desde jovem engajou-se nos movimentos dos sem-teto, mesmo quando estes movimentos não ensejavam nenhuma perspectiva de adquirir uma relevância pública social ou uma notoriedade, como o MTST agora adquiriu. Então, Boulos fez uma opção por um tipo de militância movido pelos seus valores morais de solidariedade, justiça e humanidade e por fins éticos orientados na busca de uma sociedade mais justa, igualitária e livre. Foi ficar junto com um dos setores sociais mais esquecidos da nossa desditosa sociedade. Ao tornar-se coordenador do MTST capacitou-se praticamente no exercício da liderança, condição que confere autonomia decisória a quem lidera.

Como líder do MTST Boulos demonstrou ter uma virtude rara no mundo político brasileiro: a coragem. Esta virtude é a condição necessária da política, sem a qual não se constrói uma obra significativa e não se conquista a glória. Junto com o seu movimento, participou de vários embates, de vários enfrentamentos e foi um dos mais aguerridos combatentes contra o golpe que derrubou Dilma. Teve a ousadia de não manter o MTST apenas como um movimento específico por moradia, conferindo-lhe uma dimensão política mais larga ao incorporar bandeiras políticas.

Na solidariedade a Lula, conseguiu fazer com que o PSOL superasse as querelas menores, fazendo perceber aos companheiros que, além do caráter injusto e persecutório na prisão do ex-presidente, nela está imbricada a luta pela democracia e contra o avanço do fascismo. Esta solidariedade corajosa fez com que Lula o prestigiasse e o abençoasse junto com Manuela D’Avila, no último dia de sua liberdade, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Liderança e força

No processo de construção de sua liderança nacional e popular, o principal desafio de Boulos consistirá em constituir e organizar forças sociais e políticas que lhes sejam fiéis. Para tornar-se este líder terá que criar uma identidade política que vai além da sua identidade como líder do MTST, como líder da Frente Povo Sem Medo e como líder do próprio PSOL. Terá que encarnar a representação de interesses, propostas e programa mais amplos, de sentido nacional e universalizante. Para isto terá que desvincular-se da coordenação do MTST, sem nunca abandonar o movimento. Terá que fazer outros tipos de mediações para conquistar o amplo eleitorado popular, sabendo que este é eivado de preconceitos e incompreensões até mesmo para com lutas populares como ocupações. Para construir uma nova hegemonia terá que ter a prudência para combinar equilíbrio e radicalidade, cautela e ousadia, segundo o ditem as circunstâncias.

Os políticos brasileiros, de modo geral, têm negligenciado o problema da organização de forças próprias. Dispor de forças de forças políticas e sociais próprias, nas democracias, é condição sine qua non não só para triunfar e manter o poder, mas também para implementar programas e realizar as mudanças e as inovações. É certo que não basta dispor de forças, pois o líder precisa ter capacidade persuasiva para manter o poder e virtù moral para manejar os meios de que dispõe para liderar.

Todo líder que não dispõe de forças sociais e políticas próprias terá  seus movimentos limitados e tolhidos, seja dentro do partido, no movimento social, no Congresso, no Executivo e no Estado. Sem forças próprias o líder não terá a autonomia para liderar efetivamente. Assim, Boulos terá que ter a capacidade de fazer-se o principal líder do PSOL e fazer com que o partido o aceite como esse líder; terá que fazer do PSOL um partido mais amplo, influente e organizado do que é e terá que ser capaz de fazer-se líder de um conjunto de forças democráticas e progressistas para poder encaminhar as transformações e os  fins que almeja para o povo brasileiro.

Um líder que não dispõe de forças políticas e sociais próprias estará na dependência de forças auxiliares mais poderosas do que as suas e os líderes dessas forças quererão o poder para si. Ou ficará na dependência de forças mercenárias, sempre dispostas a trair, como mostra a história recente do Brasil e as histórias de todos os tempos.

O Brasil passa por um momento maquiaveliano, um momento crítico, de crise prolongada, no qual se oferece uma grande oportunidade não só para a afirmação de um novo líder, mas também para promover grandes transformações. O povo está desorganizado, desorientado, sofrendo, à espera de um novo Moisés que seja capaz de conduzi-lo pelo deserto rumo a uma nova Canaã, rumo a uma nova Terra Prometida. A Fortuna está oferecendo este momento a Boulos e a outros líderes. É preciso ter virtù para perceber a natureza deste momento e a oportunidade que ele oferece para refundar o Brasil. E é preciso saber agir para potencializar as transformações que este momento suscita. Mesmo que a caminhada seja longa e difícil, este é o grande desafio de Guilherme Boulos.

 

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