Depois de Gaddaffi

Gaddaffi

Gaddaffi chegou ao poder antes dos 30 anos num golpe sem sangue contra o corrupto rei Idris. Ele era coronel, e desalojou em 1969 um rei impopular – entre outras razões porque era uma marionete nas mãos americanas – e com uma saúde precária. Idris estava na Grécia quando caiu, e antes de ir para a lata de lixo da história ainda teve tempo de dizer que o movimento era “desimportante”.

Gaddaffi se despede do poder sob jorros copiosos de sangue – e como uma esperança de renovação fracassada no mundo árabe. Peitou os americanos, reviu unilateralmente contratos desvantajosos aos líbios em torno da exploração do petróleo, promoveu uma melhora na vida dos cidadãos – mas depois cedeu à tentação sinistra de se perpetuar no poder. Repetiu, aí, o rei que ele destronou. Gaddaffi, como Idris, tentava transformar um dos filhos em seu sucessor. Urna, para ele, simplesmente não existia.

O espetáculo demorado de sua quada mostra a hipocrisia do mundo moderno em larga escala. Gaddaffi usou contra os rebeldes as armas que comprou com seus petrodólares das grandes potências ocidentais.

A Líbia depois dele é uma interrogação tão grande como o Egito pós-Mubarak. Qualquer liderança suspeita de servilidade perante os Estados Unidos terá enorme dificuldade em se estabelecer, a exemplo do que ocorreu no Iraque quando Saddam Hussein foi removido. Os fundamentalistas islâmicos vão tentar erguer uma República Islâmica nos moldes do Irã dos aiatolás, como já estão fazendo no Egito. A militância islâmica é a mais articulada – e extremada — no universo árabe.

O respeitado  jornalista, blogueiro e escritor americano Alexander Cockburn — um estudioso do Oriente Médio —  vê nuvens pesadas no caminho da Líbia. “Gaddaffi possivelmente será substituído não por líbios, mas pelas potências estrangeiras que auxiliaram na sua queda”, escreveu ele. “Será uma repetição do que aconteceu no Afeganistão e no Iraque. Não vai demorar muito para que as ações dessas potências  sejam vistas em todo o Médio Oriente como hipócritas e egoístas, e como tal combatidas.”

Como todo ditador, Gaddaffi sai da pior forma possível. Numa democracia, o homem do poder simplesmente vai embora. Hoje, ganha fortunas dando palestras. Numa ditadura, a troca de guarda é bem mais complicada. Geralmente termina no cemitério.

Gaddaffi

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