Depardieu traiu Danton e a França

Ao deixar o país para fugir dos impostos, Depardieu ganha o Oscar da mesquinharia antipatriótica

Depardieu como Danton

Nicolas Sarkozy, na economia, não fez praticamente nada. Na crise financeira de 2008, explicitou sua monumental capacidade de não resolver problemas. Sarkozy quis dar à França a cara dos Estados Unidos de Reagan e da Inglaterra de Thatcher, e quando este modelo entrou em colapso ele ficou imobizado — e não conseguiu de reeleger.

François Hollande, que assumiu a presidência da França em maio de 2012, é execrado pela maior parte da elite do país – mas, digam o que quiserem dele, o fato é que cumpriu as promessas que fez antes de ser eleito: instituiu leis que visam reduzir a iniquidade social no país, ao aumentar temporariamente os impostos de quem ganha acima de 1 milhão de euros por ano.

O 1% francês, como já era de se esperar, revoltou-se com a atitude de Hollande. Bernard Arnault, dono de um império que inclui marcas como a Louis Vuitton, chocou os franceses ao pedir cidadania belga no momento em que o presidente cumpriu seu prometido. Vários fizeram o mesmo – e, recentemente, foi a vez do ator Gerard Depardieu, que anunciou que abriria mão de seu passaporte francês e transferiria sua residência fiscal para a Bélgica.

Aos 63 anos, Depardieu é considerado um dos maiores atores franceses de todos os tempos. Entre os papéis que interpretou, figura o de Georges Danton, o célebre revolucionário, no drama histórico Danton. O pobre Danton está, certamente, remexendo-se no túmulo ao saber que o ator que lhe deu vida no cinema adotou uma atitude tão pouco patriótica e mesquinha.

Pode-se dizer tudo a respeito de Danton – alguns afirmam que foi um assassino frio, maldoso e dissimulado. Mas não se pode negar que foi um patriota; dedicou sua vida à causa que do povo francês e ofereceu à França seu sangue e, posteriormente, sua cabeça.

Não pensem que pretendo comparar Danton com Depardieu. Seria até injusto – Danton foi um em um milhão. Depardieu é apenas um milionário que, como tantos outros, sente-se injustiçado (ou, em suas próprias, palavras, insultado) quando é instado a ajudar a população de seu país, que o aclamou, que o considera um ícone e que, nesse momento, passa por uma crise.

Depardieu apoiava Sarkozy, naturalmente. E precisamos, por acaso, explicar a razão? Suponho que porque lhe era conveniente observar, da janela de sua suntuosa mansão parisiense, a adversidade pela qual o povo passava, talvez até lamentá-la – mas jamais deixá-la afetar sua fortuna e bem estar, de modo algum.

“Comecei a trabalhar aos 14 anos, como um impressor, como armazenista e depois como ator, e sempre paguei meus impostos”, declarou Depardieu, “e estou partindo porque eles acreditam que o sucesso, a criação, o talento e tudo o que é diferente devem ser sancionados.”

Uma jornalista do Telegraph usou essa frase para glorificar Depardieu, e até vitimizá-lo. Eu, no entanto, penso que, se a intenção dela foi justificar os atos do ator, escolheu muito mal a frase na qual baseou sua teoria. Tudo o que Depardieu afirmou acima expressa um egoísmo intenso. Para alguém com uma fortuna do tamanho da sua, não seria nenhum ato de martírio ceder um pouco aos necessitados. Principalmente quando levamos em conta que, há cinquenta anos, Depardieu poderia estar na mesma posição em que muitos de seus compatriotas estão atualmente.

“Nosso país não é o mesmo”, disse ele. “Não tenho mais razões para continuar aqui. Continuarei a amar os franceses e o público com o qual dividi tantas emoções”.

Continuará a amar o povo ao qual rejeitou ajuda? Oh, sim! Como diria o Duque de Wellington, meu caro Gerard, quem acredita nisso acredita em tudo.

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