Como num zoológico? O megasucesso de um reality show sobre uma família de caipiras americanos

Phil Robertson (segundo à esq.) em família
Phil Robertson (segundo à esq.) em família

Conhece Phil Robertson?

Phil Robertson é um fanático. Chocou meio mundo com sua declaração de que sodomitas, adúlteros, idólatras, prostitutas, bêbados, ladrões e “avarentos” não são dignos do reino de Deus. A rede de televisão A&E suspendeu brevemente Robertson do popular “Os Reis dos Patos” (“Duck Dynasty), série de TV que se tornou objeto de culto para milhões de telespectadores.

Embora a rede posteriormente tenha reintegrado Robertson ao elenco e anunciado que ele estará de volta na próxima temporada, em março, a controvérsia em torno de suas frases e a decisão de tirá-lo do ar continuam a ressoar.

Para aqueles que não estão familiarizados com o programa, “Os Reis dos Patos” é um reality show em torno de Phil Robertson, 67 anos, patriarca de um clã na Louisiana que possui e opera um negócio milionário de produtos relacionados à caça de patos. Barbudo, com uma bandana, Robertson é um rabugento do sul dos EUA com visões conservadoras de praticamente todos os assuntos.

O show é assistido precisamente porque é um clichê – um auto-intitulado Rei do Pântano, sua família e seus colegas capiras cabeças ocas.

O mundo de Robertson não é um lugar onde gays, liberais, negros, comunistas e outras espécies desviantes estão autorizados a circular.

Em dezembro, ele defendeu seus pontos de vista criptofascistas na edição americana da revista GQ. Robertson afirmou que “o comportamento homossexual” é pecado. Imediatamente, uma tempestade de protestos se seguiu, liderada pela comunidade gay e acompanhada por ninguém menos que Charlie Sheen, não exatamente um apóstolo da virtude, que atacou Robertson por seus comentários “imperdoáveis”.

As razões por trás da ressurreição de Robertson, após a suspensão, são obviamente financeiras. “Os Reis dos Patos” é a galinha dos ovos de ouro da A&E, gerando mais audiência do que qualquer outra atração do gênero, com uma uma média de 14 milhões de espectadores por semana nos EUA. É o reality show de maior sucesso na história da TV a cabo.

Além disso, há uma enorme receita de merchandising ligada à marca Duck Dynasty, da qual a A&E recebe uma fatia considerável. Teria sido suicídio manter Robertson fora do ar – especialmente depois que sua família avisou que não participaria da coisa sem ele.

Robertson e seus partidários argumentaram que suas declarações antigays eram uma extensão de sua paixão pela Bíblia. A rede ficou na incômoda posição de desagradar o público cristão fundamentalista, responsável pelo estouro da minissérie The Bible em seu canal History no início de 2013.

O discurso antigay na revista GQ foi retirado de um contexto mais amplo. Robertson parecia ser mais caridoso e moderado em outra parte da matéria:

“Nós nunca, nunca julgamos alguém em termos de quem vai para o céu ou o inferno”, Robertson diz em uma passagem. “Esse é o trabalho do Todo-Poderoso. Nós apenas os amamos e lhes damos as boas novas sobre Jesus — sejam eles homossexuais, bêbados, terroristas. Deixamos Deus se incumbir deles mais tarde, entende o que estou dizendo?”

Os Robertsons são caçadores de pato cuja vida foi transformada em entretenimento para as massas. Isso nunca foi feito para ser alta cultura ou uma meditação prolongada sobre o Renascimento. É uma série dedicada a explorar os valores absurdos e o comportamento de uma família americana de “lixo branco” que ficou milionária graças à astúcia empresarial de Phil Robertson.

“Os Reis dos Patos” expõe as fraquezas e loucuras da cultura redneck. É como ver uma espécie estranha num zoológico. Em última análise, você não pode reclamar se um bicho atirar as próprias fezes na sua cara. Há uma famosa expressão idiomática inglesa que resume a questão: “Se alguma coisa nada como um pato, anda como um pato e faz ‘quack! quack!’ — é um pato”.

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