Como o sonho da USP Leste se transformou num imenso pesadelo ambiental

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Protesto de alunos em dezembro de 2013

 

“A USP mentiu”. Foi com essa declaração que o gerente do Departamento de Áreas Contaminadas da CETESB, Elton Gloeden, encerrou seu depoimento na CPI das Áreas Contaminadas da Câmara Municipal de São Paulo. A frase de Gloeden foi dita na semana passada, após minucioso histórico sobre a contaminação do solo da USP Leste.

A USP Leste é considerada pelo governo Alckmin um modelo de inclusão social. É comum ouvir da comunidade de Ermelino Matarazzo que Mário Covas teria escolhido a dedo o local do novo campus. Para os tucanos, levar a USP para a Zona Leste selaria para sempre uma aliança com o povo.

Os esforços para implantação mobilizaram a administração estadual. Estava assim consolidada a aliança de Higienópolis com Ermelino Matarazzo. A USP Leste era o “verniz” popular que faltava ao PSDB.

A euforia era tanta, que em 27 de Janeiro de 2005, o então reitor da Universidade de São Paulo, Adolpho José Melfi, afirmou que aquela data ficaria marcada na história: a inauguração do campus da USP Leste. Era um compromisso social da melhor universidade da América Latina.

Passados nove anos, a USP já não é a melhor universidade da América Latina e o compromisso social transformou-se num dos maiores desastres ambientais promovidos pelo estado.

Construída sem licença ambiental ou mesmo alvará da prefeitura, a obra foi erguida em área de aterro na várzea do Tietê. Está sobre uma imensidão de lixo doméstico e industrial aterrado na Área de Preservação Ambiental (APA) e Parque Ecológico do Tietê.

Produtos químicos, metais pesados e vasta quantidade de gás metano estão no solo, subsolo e lençol freático do campus, além dos temidos contaminantes cancerígenos. Toda essa contaminação ocorreu nas décadas de 50 a 70 com descarte clandestino de lixo doméstico e industrial.

O caso foi parar no Ministério Público. O sonho passava a ser pesadelo. Com o corpo docente e discente da USP Leste em alerta, não demorou aos demais órgãos ambientais tratarem o grave problema. Diante deste cenário, a 2ª Vara de Fazenda Pública interditou em janeiro o campus, face aos riscos à saúde pública e de explosão. Mas a USP Leste ainda colecionaria outro agravante ambiental: novo aterro clandestino.

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Segundo parecer técnico conclusivo da Promotoria de Meio Ambiente da Capital, o campus recebeu outro aterro clandestino entre outubro de 2010 e setembro de 2011. Lá depositaram cerca de 109 000 metros cúbicos de terra clandestina, sem as devidas aprovações ambientais. Tal montante corresponde a 6 055 caminhões.

Todo esse volume de terra clandestina é investigado pelo Ministério Público Estadual. A principal suspeita, segundo relatório apresentado pela consultoria ambiental contratada pela universidade, é de que seja oriunda do subsolo da área hoje pertencente à Igreja Universal do Reino de Deus, onde funcionará o “Templo de Salomão”. O templo está localizado no Brás, bairro com histórico de solo contaminado, decorrente da atividade fabril entre as décadas de 40 e 70.

Há ainda a suspeita de envolvimento da construtora Cyrella, segundo aponta o MPE. No Inquérito, a terra sem certificado de procedência teria sido entregue por uma empresa sem contrato, sem autorização ambiental ou mesmo qualquer identificação de procedência, fato que a Cyrella nega. A direção da USP Leste afirma que a terra clandestina teria vindo da obra de um edifício em um antigo terreno de fábrica desativada.

Ainda são mencionadas no inquérito  as empresas JM Terraplenagem e uma micro empresa chamada Ratão, que confirmaria que o solo serviu para a construção do Templo de Salomão. Nome mais adequado não poderia existir.

Faz tempo que a CETESB tem sido negligente com as áreas contaminadas em SP. Após advertir a USP em agosto de 2013, solicitando a remoção da terra clandestina, a entidade sugeriu como medida preventiva o plantio de grama e isolamento da área como forma de evitar maiores danos ao meio ambiente. Também foi recomendado o detalhamento da investigação.

Após a suspensão das atividades docentes na USP Leste em dezembro de 2013, foram definidas ações emergenciais a serem aplicadas no prazo de 30 dias.

O solo clandestino continua por lá. A USP mentiu.

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