Claudia viveu e morreu como uma daquelas pessoas que ignoramos todos os dias

Os órfãos no enterro
Os órfãos no enterro

Vamos esquecer Claudia Ferreira em alguns dias, ou em algumas horas. Aconteceu com o ciclista pobre morto pelo carrão do filho de Eike.

Choramos, esperneamos e rapidamente esquecemos: é assim. Não temos tempo a perder. Somos bacanas e temos muito que fazer.

Por isso devemos refletir sobre o caso com urgência, ou ninguém estará mais minimamente interessado no assunto.

Claudia foi o Brasil que ninguém quer, que ninguém enxerga. É o Brasil dos ignorados, dos desprezados, dos que só vemos quando nos servem pessoalmente na faxina de casa, na mesa de um bar ou em coisa do gênero.

E assim será enquanto não houver uma mudança radical na mente do brasileiro.

Na Escandinávia, ninguém tem o direito de se julgar melhor que alguém apenas porque é mais rico. Um lixeiro lá é respeitado como um integrante vital da sociedade.

É uma cultura oposta à que vigora no Brasil. Por trás do igualitarismo notável dos escandinavos está, como falei tantas vezes no DCM, a Janteloven – as leis de Jante.

Jante é uma cidade fictícia criada por um romancista local décadas atrás, e ali a regra número 1 era exatamente aquela: ninguém é melhor ou pior que ninguém por causa das posses.

No Brasil, os desvalidos não existem. Como disse o marido de Claudia, ela foi tratada como “bicho”.

Alguns se indignaram não com o tratamento dado a Claudia, mas com a comparação, e é verdade: os animais não são tratados assim.

Numa frase infame, Boris Casoy foi flagrado, algum tempo atrás, dizendo que lixeiros não podiam ser felizes. Podem – mas não no Brasil.

Talvez o maior fracasso de Lula e Dilma tenha sido o de não transformar a mente do brasileiro. Continuamos a ver as Claudias, ou os Amarildos, como se fossem nada. Mais precisamente: continuamos a não vê-los.

Só a polícia vê. Em geral, para matar.

O sofrimento, a humilhação, a fome, as privações — a subvida chegou ao fim para Claudia. A pior coisa que pode ocorrer a alguém é nascer, escreveu Schopenhauer. Parece que ele pensava nas Claudias do mundo.

Não acredito em Deus, mas gostaria que ele existisse para proporcionar em algum lugar uma reparação a quem veio apenas para penar, como Claudia.

Mas a história de Claudia não termina nela.

São quatro filhos, e lamentavelmente eles seguirão um caminho muito parecido com o da mãe, porque é assim que são as coisas no Brasil.

Tivesse nascido na Escandinávia, ela estaria andando de bicicleta, sorridente, cabelos tratados, roupas bonitas, dentes impecáveis. O Estado lá cuida de todos, não apenas dos privilegiados.

Seus quatro garotos estariam em boas escolas, falariam línguas, dormiriam em camas acolhedoras e jamais lhes faltaria comida na mesa.

Mas não.

Claudia nasceu no Brasil, para seu infortúnio. E viveu e morreu como uma brasileira invisível, como uma daquelas pessoas, tantas, que a gente ignora todos os dias, todos os dias, e todos os dias.

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