Claro que atravessei a Abbey Road

Qualquer semelhança com a família Nogueira não é coincidência

Tombaram a zebra de Abbey Road, 41 anos depois da foto.

Patrimônio nacional. Ninguém mais pode removè-la. Muitos moradores da região gostariam que fosse retirada porque o trânsito ali fica sempre complicado com as peregrinações constantes de turistas.

Todo mundo quer tirar uma foto atravessando Abbey Road.

Ou, simplesmente, ver Abbey Road. Uma vez, vim a trabalho a Londres. Dois dias, uma agenda rápida. Na hora de ir para Heathrow, pedi num impulso ao motorista de táxi que passasse por Abbey Road. Eu não a tinha visto.

Tinha que ver.

A minha Jerusalém.

Se os Beatles não tivessem tirado a foto atravessando a rua os problemas de congestionamento desde que o disco se consagrou não existiriam. Mas não dá para imaginar outra cena que não a travessia. John de paletó branco, Paul descalço, George de jeans e All Star. Ringo. Como estava Ringo mesmo?

E o Fusca atrás. Eternizado pelo acaso.

Camila Harrison e Pedro Lennon em frente ao estúdio

Os Beatles entraram meninos pela primeira vez em Abbey Road. Caipirinhas de Liverpool com vontade de fazer rock como Elvis. Paul lembra que em Love Me Do o produtor George Martin pediu a ele que cantasse um trechinho que originalmente era de John. Isso porque John tocava gaita na música e ficava difícil.

Paul conta que tremeu. Como iniciante que era. Que eram. Ele não tinha treinado para aquilo. Ele faz um “do” trêmulo ao relembrar a cena e cantarolar a parte que lhe foi dada de improviso.

Bem, depois é história.

Nas férias de julho de 2009, fui com os meninos a Abbey Road. Claro. No sábado em que se comemoravam os 40 anos da feitura da fotografia célebre.

A foto nossa pisando a zebra tinha que ser feita e foi.

Não são só beatlemaníacos que fizeram de Abbey Road um ponto turístico de Londres. Encontrei, naquele dia, brasileiros que trabalhavam na Pizza Express. Mal conheciam os Beatles, mas acharam que era obrigação ir a Abbey Road e fazer a foto.

Abbey Road foi o último disco dos Beatles. E o melhor. O melhor da história do rock. O rock terminou em Abbey Road, como movimento inovador.

Yoko já era parte do ambiente. John e ela tinham sofrido um acidente de carro pouco antes do começo das gravações, e Yoko estava convalescendo. Uma cama comprada na Harrods foi posta no estúdio, e nela Yoko se deitou de camisola com um microfone acima da cabeça para o caso de ter algo a dizer. “Para mim ela ficou incorporada à mobília”, lembra o engenheiro de som Geoff Emerick.

Já não eram os velhos camaradas. Quando alguém ia fazer uma coisa pessoal, os outros saíam do estúdio. A magia de Liverpool pareceu retornar num momento: quando Paul, George e John fazem nesta ordem o solo triplo no lado B do disco, antes de The End. Eles tinham ensaiado e iam entrar no estúdio para gravar as guitarras, o que fizeram numa única tomada. Yoko, já restabelecida, ia acompanhar John, como sempre fazia. “Não, agora não”, ele disse. Os três cantam “love you” enquanto solam.

Eles tinham brigado muito no disco anterior, Let It Be. Que não era grande coisa. Parecia o fim. Mas ainda não era. Era quase. Muitos anos depois, Paul lembraria assim. “Era como se tivéssemos que nos reencontrar uma última vez para mostrar do que éramos capazes.”

Eram capazes de muitas coisas aqueles quatro juntos.

Isolados, nem tanto.

Mas juntos John, Paul, George e Ringo fizeram a melhor música da era moderna, um som sobre qual o tempo, o grande juiz da arte, não terá efeito.

Abbey Road foi tombada oficialmente muito tempo depois já ter sido no coração de milhões de beatlemaníacos como o que, na foto de abertura deste texto, atrapalha sem nenhuma cerimônia a perua que queria seguir adiante.

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