Ciro Gomes foi muito bem no Roda Viva, mas ele hoje é um candidato da Série B. Por Joaquim de Carvalho

Ciro Gomes no Roda Viva. Foto: Reprodução/YouTube

A participação de Ciro Gomes no Roda Viva mostrou que ele sabe das coisas: conhece o Brasil e tem propostas bem definidas sobre o que fazer para tirar o país do buraco. Nas respostas políticas, algumas tiradas foram marcantes:

  • Temer é um escroque.
  • O PSDB fez acordo com o PCC em São Paulo, daí porque o número de homicídios caiu.
  • O PSDB manipula estatísticas da segurança pública— houve quedado homicídios, efetivamente, mas também há casos que são registrados como morte a esclarecer.
  • Quando era presidente, Dilma Rousseff errou ao apoiar Eduardo Cunha na disputa que este teve com seu irmão, Cid Gomes, que acabou se demitindo do Ministério da Educação. Resultado, apontado por Ciro: Eduardo Cunha está preso e Dilma foi cassada. Quem estava errado: Cid ou Eduardo Cunha?
  • No Câmara, se o deputado não tiver uma âncora muito forte no mundo das coisas reais, ele viverá num universo paralelo.
  • Para acabar com o político fisiológico, é só fechar a torneirinha da corrupção — esses políticos se elegem só para roubar.

A participação de Ciro no debate é como, no futebol, ver um time arrebentando, ganhando todas as partidas. Só que, a rigor, o campeonato que Ciro Gomes disputa hoje é a Série B.

Na série A, só tem Lula e, talvez, Jair Bolsonaro, os únicos que conseguem despertar paixões. Ciro é um excelente candidato, mas seu desempenho nas pesquisas é fraco.

A rigor, é fraco porque Ciro ainda não representa uma força política capaz de levá-lo ao segundo turno.

Ele é representante de si mesmo — tem a exibir seu respeitável currículo: deputado estadual, prefeito, governador, ministro.

Falta, entretanto, a conexão com movimentos sociais, os alicerces fincados no Brasil real, o Brasil em movimento.

No Roda Viva, por falha dos entrevistadores, o principal assunto ficou de fora: Lula.

Quando Bernardo Mello Franco, de O Globo, tentou levar o programa para essa pauta, a única que faz sentido diante da liderança acachapante de Lula, logo foi interrompido por outro jornalista, da Piauí, que levou o assunto para o hipotético (e hoje distante) governo Ciro.

É verdade que o formato do Roda Viva não ajuda.

Os assuntos não são aprofundados porque os entrevistadores competem na disputa de quem fará a pergunta mais inteligente — digo isso como quem já participou do programa algumas vezes.

Para o jornalismo, o mais importante não são as perguntas, mas as respostas. A importância da pergunta está na força que tem de gerar respostas esclarecedoras.

Nesse sentido, deve ser simples, direta.

É como a picareta que rasga a terra em busca do ouro. A picareta só existe como meio, não como fim. O que vale é o que está debaixo da terra ou por trás da pedra.

Bernardo perguntou a Ciro Gomes por que ele não foi ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC na véspera ou no dia da prisão de Lula.

A ausência de Ciro Gomes talvez este tenha sido o seu maior erro na luta para chegar à presidência.

Mas, com a interrupção da resposta de Ciro, o público do Roda Viva ficou se saber por que ele deu as costas ao principal líder político do Brasil num momento crucial da biografia de ambos.

No cenário político brasileiro, será muito difícil que um candidato progressista ganhe a disputa sem o apoio entusiasmado de Lula e do PT.

E a ausência de Ciro no sindicato teria sido em razão da mágoa que parece existir pelo erro político de Dilma que, procurando agradar Eduardo Cunha, negou apoio a Cid Gomes, em 2015.

Como se recorda, Cid Gomes foi convocado para comparecer à Câmara depois de dizer que 300, 400 deputados, “achacam”. Na tribuna, foi pressionando a citar nomes e, se dirigindo a Cunha, então presidente da casa, afirmou:

“Eu fui acusado de ser mal educado. O ministro da Educação é mal educado. Eu prefiro ser acusado por ele [Eduardo Cunha] do que ser como ele, acusado de achaque”, afirmou Cid Gomes.

Depois da sabatina de Cid Gomes, Eduardo Cunha, triunfante, leu um comunicado: segundo ele, Aloizio Mercadante havia comunicado a demissão de Cid Gomes.

Era preciso aprofundar o tema no Roda Viva. Em vez disso, os entrevistadores levaram a pauta para questões econômicas — importantes, claro, mas menores no atual quadro político, já que não haverá governo de Ciro Gomes se esse episódio não escarafunchado e superado.

Gostem ou não os jornalistas ou os eleitores de oposição a Lula, o principal tema desta eleição será o ex-presidente.

Com ele candidato, o que é muito difícil, ou não.

Era preciso perguntar a Ciro o que ele acha da prisão, se Lula deveria ser colocado em liberdade.

Ciro é um candidato da série B, como praticamente todos os outros. Juntos, não alcançam o percentual de votos de Lula.

É preciso saber o que ele pensa a respeito daquele que o eleitor quer de volta à presidência.

Sem isso, nenhum candidato terá legitimidade para disputar os votos do campo progressista e, muito menos, governar.

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PS: O Fortaleza é o líder na série B e, dirigido por Rogério Ceni, tem exibido um futebol muito eficiente.

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