Chavez e o mundo árabe

Bandeiras do Oriente Médio tremularam nas comemorações da vitória de Chavez. Não foi à toa

Ele acha que a presença americana no mundo árabe é deletéria

DE CARACAS

Conforme a multidão ocupou as ruas de Caracas na tarde do dia 7 de outubro, para celebrar a bem-sucedida reeleição do presidente Hugo Chavez, uma bandeira libanesa foi erguida. Conforme ouviam, em Miraflores, o presidente discursar da sacada do palácio presidencial, um pouco mais tarde, uma bandeira palestina também foi vista a ondular sobre as cabeças. Tais símbolos não eram insignificantes; a reeleição de Chavez com 55%, onze pontos a mais que seu oponente, Henrique Capriles, irá resultar em repercussões não apenas no continente latino-americano, mas também no mundo árabe.

Dois dias depois de sua vitória, Chavez reiterou seu apoio ao governo sírio. Isso não constava das promessas pré-eleitorais de Capriles, que era visto por muitos na Venezuela como ‘o candidato dos Estados Unidos’ , e que prometeu desenvolver ‘relações próximas com Israel’ assim como rever várias áreas de política externa. Chavez, por outro lado, expulsou o embaixador de Israel em janeiro de 2009, durante uma campanha de bombardeio em Gaza. E não foi a primeira vez que ele realizou esse tipo de coisa, uma vez que já havia ordenado ao embaixador americano que fosse embora em setembro de 2008.

A partir de sua primeira conferência de imprensa após ter sido reeleito, e particularmente em relação ao mundo árabe, fica muito claro que repensar a política externa é a última coisa que Chavez tem em mente. Ele descreveu o governo de Assad como ‘o único governo legítimo na Síria’, antes de completar: “Ele tem feito um grande esforço para fazer concessões e mudanças constitucionais, e tem sugerido eleições, mas nada disso é verdade para aqueles que querem derrubar seu governo”.

A política externa tem sido muito debatida durante os últimos quatorze anos de governo de Chavez. S ua popularidade, tão penetrante entre os pobres da sociedade venezuelana, espalhou-se entre a ocupada Palestina, o sul do Líbano e muitas outras partes do Oriente Médio. Chavez denunciou veementemente a NATO (Organização do Tratado do Atlântico do Norte) pelo bombardeio da Líbia no começo desse ano, descrito na época como “cinismo imperial”, um “massacre” e uma “loucura” que “destruiu” o país.

Alguns comentaristas ocidentais criticaram o apoio de Chavez para aquilo que chamam de governos ditatoriais na Líbia e, agora, na Síria, embora reconheçam as credenciais democráticas da Venezuela em si. Ainda assim, Chavez está particularmente ciente da demonização que sofrem os líderes políticos que desafiam ou questionam a narrativa dominante – outrora referida como “O Consenso de Washington”. O golpe de estado de abril de 2002 contra seu governo, que resultou em enormes protestos e no restabelecimento de Chavez após somente quarenta e oito horas, foi precedido por muitos comentários histéricos tanto na mídia americana quanto na mídia venezuelana de propriedade privada, que rotineiramente se referiam a Chavez como um “autocrata”, um “macaco”, ou até como “Hitler venezuelano”.

Chavez é de opinião que, embora indiscutivelmente enredada em uma situação de tumulto, há mais forças militares em trabalho na Síria do que retratado na mídia. Dias atrás, ele repetiu sua opinião em relação a Síria, segundo a qual “o governo americano é o maior responsável por esse desastre.”

Não há dúvida de que a presença de Chavez continuará sendo sentida no mundo árabe durante os próximos seis anos. Com uma onda de governos pró-pobres continuando a aproveitar sua popularidade na América Latina – Rafael Correa no Equador, Evo Morales na Bolívia e Cristina Fernandez de Kirchner na Argentina – a questão é como os povos árabes irão responder a esse exemplo de resistência aos interesses estrangeiros. De fato, em um discurso devido a decisão de expulsar o embaixador israelense, Hugo Chavez fez sua proposta: “A cada dia, a América Latina se torna mais unida e mais livre. Espero que um dia os árabes venham a ser do mesmo modo; unidos. Unidos ou dominados, vocês decidem!”

TRADUÇÃO: CAMILA NOGUEIRA

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