Cássia é um raro documentário em que o fato de a protagonista ter morrido há pouco tempo funciona a favor

Cássia está passando na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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Cássia é um raro documentário em que o fato de sua protagonista ter falecido há pouco tempo funciona a seu favor. Afinal de contas, a maior parte do seu público ainda tem bem nítida em sua mente a imagem da roqueira rebelde, agressiva, desbocada e “machona” que dominou os programas de TV, clipes da MTV, capas de revista e, claro, paradas de sucesso nas rádios brasileiras no final da década de 90 e início da de 00.

E é justamente por se aproveitar dessa persona pública de sua documentada e virá-la ao avesso, apresentando a mulher doce, companheira e bem humorada que ela era na vida pessoal, que o cineasta Paulo Henrique Fontenelle (dos igualmente magníficos Loki: Arnaldo Baptista e Dossiê Jango) cria uma obra bela e tocante como esta.

Traçando a trajetória artística de Cássia Eller desde o seu início no teatro e no circo até o auge de sua carreira na apresentação histórica no Rock in Rio do ano 2000, Cássia apresenta um riquíssimo arquivo de fotos e vídeos (outra vantagem de abordar um tema recente) que permitem que o espectador constate com os próprios olhos aquilo que os entrevistados relatam acerca de suas memórias ao lado da cantora.

E logo nos primeiros minutos de projeção, quando os amigos da documentada começam a falar sobre sua timidez e humildade, Fontenelle mostra trechos de entrevistas e gravações de bastidores em que ela, ainda exibindo um sorriso alegre e descontraído de menina, se embaraça ao mostrar para a câmera os primeiros trocados que conseguiu ganhar fazendo música ou ao ser questionada sobre temas simples, como o fato de ter recentemente se mudado para o Rio de Janeiro.

A simplicidade de Cássia Eller não demora muito para conquistar o espectador, aliás, é impossível não ser arrebatado logo de cara pela força de sua voz e de suas interpretações tanto nos estúdios quanto nos palcos: capaz de impressionar Dave Grohl com sua versão “embromation” de “Smells Like Teen Spirit”, mas também de imprimir um universo de sentimentos e de doçura em uma demo tape amadora em que canta “Por Enquanto”, da Legião Urbana.

Ela não precisava compor, como diz um dos entrevistados deste doc, para expressar suas dores, manifestar seu descontentamento ou protestar contra e hipocrisia a seu redor, imprimindo sua alma às canções compostas por parceiros ou por outros cantores e fazendo-as, dessa forma, também um pouco suas.

Genuinamente humilde a ponto de montar um esquema para se apresentar de surpresa em locais pobres e distantes e para poucas pessoas sem ganhar um tostão, Cássia Eller acabou sendo também uma figura importante para o avanço da luta pelos direitos dos homossexuais, proporcionando em vida provas suficientes para que, após sua morte, Maria Eugênia, sua companheira de longa data e segunda mãe de seu filho Francisco, vencesse a disputa judicial pela guarda do menino.

É revoltante (mas não surpreendente) relembrar a canalhice com a qual a grande mídia tratou sua morte, fazendo acusações sobre suposições ainda não investigadas, expondo seu filho pequeno ao ridículo e denegrindo sua imagem com o simples objetivo de vender mais revistas e jornais ou subir na audiência (algo não muito diferente do que a Veja, maior citada aqui, costuma fazer com a política brasileira, não é mesmo?).

Dando vida às imagens de arquivo ao utilizá-las de maneira inventiva e dinâmica através dezooms, efeitos que criam “camadas” dentro das fotografias e trucagens visuais das mais variadas, Paulo Henrique Fontenelle apresenta em Cássia uma personagem contraditória, complexa e humana que, apesar de nos fazer voltar a lamentar a perda de uma artista magnífica, o coloca muito próximo de se tornar não apenas um dos melhores, mas o melhor documentarista de sua geração.

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