Casamento real: a estranha adoração do brasileiro por uma família antiga, rica e disfuncional. Por Kiko Nogueira

O triunfo da esperança sobre a experiência

Muita gente boa já falou que somos, no fundo, monarquistas.

Isso explica a quantidade de reis e rainhas que temos, do futebol à música popular, passando pelo pastel e pelas batidas.

E ajuda a explicar o sucesso que aquela gente jeca da família real britânica faz no Brasil.

O casamento do príncipe Harry com a atriz americana Meghan Markle foi transmitido ao vivo (!?!) da Capela de São Jorge, no castelo de Windsor.

Comentamos sobre a lista de convidados. Lady Di, a trágica princesa chata de galocha, populista e oportunista, é lembrada com carinho.

Aparentemente, é incrível o fato da mãe de Meghan ser negra. Sinal dos tempos. Acabou o racismo. Viva.

Toda a mídia cobre como se fosse Copa do Mundo. O G1 consegue falar em “tradição e modernidade”, uma fórmula vagabunda que serve para qualquer coisa.

Se a adoração dos ingleses pela casa de Windsor é patética, imagine a dos brasileiros — de resto, considerados, pela turma de Elizabeth, selvagens monoglotas que ainda estão descendo das árvores.

Meghan Markle é apenas o novo membro de uma família antiga, feia, rica, disfuncional e com velhos laços com nazistas. Boa sorte para ela.

Em 2011, o jornalista e escritor Christopher Hitchens tentou avisar Kate Middleton para se afastar daquele pessoal. Kate estava para desposar William, irmão mais velho de Harry.

O artigo, publicado na Slate, continua atual. Publico alguns trechos:

Um monarca hereditário, observou Thomas Paine, é uma proposição tão absurda quanto um médico ou matemático hereditário. Mas tente apontar isso quando todos estão aparentemente molhados de entusiasmo com o bolo e os vestidos da futura mãe do absurdo constitucional. Você não parece estar expressando o bom senso.

Você parece um velho ranheta. Suponho que essa deve ser a “mágica” monárquica de que tanto ouvimos: por alguma alquimia mística, os imperativos de criação de uma dinastia tornam-se material de romance, até mesmo de “conto de fadas”. (…)

A monarquia britânica não depende inteiramente do glamour, como o longo e longo reinado da rainha Elizabeth II continua a demonstrar. Sua inabalável obediência e confiabilidade conferiram algo além de charme à instituição, associando-a ao estoicismo e a uma certa integridade.

O republicanismo é infinitamente mais difundido do que quando ela foi coroada, mas é muito raro ouvir a própria Soberana sendo criticada.

Não tenho certeza se ela merece essa imunidade. A rainha tomou duas decisões importantes bem cedo em seu reinado, nenhuma das quais foi imposta a ela. Ela se recusou a permitir que sua irmã mais nova, Margaret, se casasse com o homem que amava e escolhera, e deixou que seu marido autoritário se encarregasse da educação de seu filho mais velho.

A primeira decisão foi tomada para apaziguar os líderes mais conservadores da Igreja da Inglaterra (uma igreja da qual ela é, absurdamente, a chefe), que não pôde aprovar o casamento de Margaret com um homem divorciado. O segundo foi tomado por razões menos claras.

O resultado foi igualmente desastroso em ambos os casos: a princesa Margaret mais tarde se casou e se divorciou de um homem que ela não amava e depois teve anos para desperdiçar como modelo de socialite ociosa, sempre com um cigarros e um drinque de gim, fofocas e puxa sacos, infeliz. (Ela também produziu algumas crianças reais extras, para as quais algo a fazer tinha que ser encontrado.)

O príncipe Charles, submetido a um regime de violentos padres em internatos penitenciais, acabou sendo convencido a encarar um casamento calamitoso com alguém que não amava ou respeitava, e agora é o sujeito mal-humorado, careca e licencioso de hoje. Ele também aparentemente encontrou um contentamento tardio com a ex-esposa de um oficial.

Juntos, Margaret e Charles deram o tom à enxurrada de descendentes com título de nobreza, desleixados, irresponsáveis, cujos nomes, e muito menos feitos, são quase impossíveis de acompanhar. Existem muitos deles! E as coisas sempre têm que ser encomendadas para eles fazerem.

Para o príncipe William, pelo menos, foi decidido no dia de seu nascimento o que ele deveria fazer: encontrar uma esposa apresentável, ser pai de um herdeiro (de preferência um macho), e manter o show na estrada.

Por mais um exercício dessa notória “mágica”, agora é duplamente importante que ele faça essa coisa simples, porque somente seu suposto carisma pode salvar o país do que os monarquistas temem: o rei Carlos III. (Monarquia, você vê, é uma doença hereditária que só pode ser curada por surtos recentes de si mesma.) (…)

Envelhecer sem trabalho de verdade exceto esperar pela morte de mamãe não é vida.

Alguns britânicos afirmam que “amam” a casa de Hanover. Esse amor assume a forma macabra de exigir um sacrifício humano regular, pelo qual pessoas não excepcionais são condenadas a levar existências totalmente artificiais e tensas, e então punidas ou humilhadas quando elas desmoronam. (…)

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