Cartolas ricos, clubes quebrados e jogadores mercenários

Teixeira com Lula

 

Estranhei, quando vi trechos da festa do final do Campeonato Brasileiro de 2010, o clima de camaradagem entre Lula, então presidente, e Ricardo Teixeira.

No campo das relações públicas, um ótimo momento para Teixeira, mas péssimo para Lula.

Especulei comigo mesmo sobre isso, e supus que Lula via em Teixeira um companheiro no que diz respeito ao tratamento recebido da mídia. Haveria, ali, uma espécie de solidariedade entre espancados, por assim dizer.

Mas havia uma diferença brutal: Lula foi atacado quase sempre pelas razões erradas. Programas bem-sucedidos de redistribuição de renda como o Bolsa Família viraram, na pena desastrada de colunistas como Merval Pereira, Ali Kamel e Arnaldo Jabor, ações assistencialistas, clientelistas, populistas etc.

Ricardo Teixeira, ao contrário de Lula, foi atacado pelas razões certas. Na CBF, ele transformou a seleção brasileira numa máquina de fazer dinheiro – para ele mesmo. O marco zero foi o multimilionário contrato de patrocínio assinado em 1996 entre a CBF e a Nike, então comandada no Brasil pelo atual presidente do Barcelona, Sandro Rosell.

Não chega a ser surpresa a informação, dada por Juca Kfouri, de que Rosell teria depositado um cheque no valor de 3,8 milhões de reais na conta da filha de 11 anos de Teixeira.

Não é apenas a imagem de Teixeira que – se é que é possível – sai brutalmente manchada com a notícia. É um embaraço enorme também, por extensão, para a Nike, para Rosell e até para o Barcelona.

O dinheiro grande trazido pelas empresas esportivas e pelas emissoras de televisão corrompeu o futebol. Antes, não havia tanta tentação. Os clubes viviam, basicamente, da arrecadação das bilheterias.

Os cartolas – mundo afora — se intoxicaram com os bilhões de dólares que rapidamente inundaram o futebol. E trataram de acertar sua vida, como o caso de Ricardo Teixeira tão bem ilustra. Enriqueceram. Ao mesmo tempo, os jogadores se transformaram em mercenários. Os métodos de administração precários e escusos no futebol estão estampados na situação financeira lastimável dos clubes — que teoricamente deveriam ser os principais beneficiários do dinheiro novo. Mesmo o Barcelona está tecnicamente quebrado sob dívidas de meio bilhão de euros. Se os credores apertarem, o Barcelona enfrentará dias duros.

Clubes pobres e cartolas milionários: é apenas mais uma demonstração de que as pessoas costumam tratar (bem) melhor de seus interesses individuais do que dos da comunidade. Para que isso não aconteça, é preciso vigilância.

Transparência no futebol. Sem isso, a corrupção não vai cessar. E punição exemplar. Seria um ultraje para os brasileiros que Ricardo Teixeira se instalasse em Miami, longe dos problemas que ele próprio criou para si mesmo no Brasil.

Outro dia, vi um vídeo da ESPN do Brasil em que Andrew Jennings, um experimentado jornalista britânico que fez um documentário para a BBC sobre a corrupção na Fifa, dizia, basicamente, o seguinte: “Quando o governo vai dizer para o Ricardo Teixeira ‘chega’? Não sou eu estou sendo roubado por conta dos impostos que não são pagos e outras coisas. São vocês.”

Jennings teria com certeza feito uma careta se visse a foto de Lula com Teixeira na festa.

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