Carta ao meu amigo Miranda. Por Sônia Maia

Miranda, fotografado por Rui Mendes

Sônia Maia é jornalista, coreógrafa, uma das fundadoras da revista Bizz e referência do rock brasileiro

Ei, Amigo!

Pediram pra escrever um tributo a você. E eu resistente como sempre, tu sabes, essa coisa do Sexo Explícito que Rubs Troll colocou tão bem na música “A Necrofilia da Arte”, parafraseando uma de suas estrofes “se o Miranda morreu eu amo ele…” , concluí, sem a menor humildade, que você adoraria fosse eu a escrever-te um tributo…

Quantos anos faz? Desde mil novecentos e oitenta e…., quando fui a Porto Alegre pela primeira vez pra viver com toda a intensidade aquela cena que tanto me incendiava o coração e a alma.

E então você me recebeu naquele teu quarto todo empilhado de vinis, deitadão na cama, com aqueles olhos azuis muito lindos seus, a barbona já inseparável, e aquele corpão que só cresceria para o aconchego de quem teve a sorte de cair em seus braços e abraços – amigos, amigas e as tantas mulheres que amastes e te amaram.

Lembro de você me dizendo que a ‘culpa era toda minha’, de você ter vindo pra São Paulo a meu convite pra integrar o time de jornalistas da BIZZ, e ter dado no que deu… Qua Qua Qua Qua Qua… E lá vinha aquela risada de uma espontaneidade libertadora, que dissipava qualquer assunto sério querendo rondar a conversa.

E me perguntaram, hoje, por que te convidei? O motivo era o mesmo de eu ter convidado também João Gordo: pra bagunçar aquela turma que fazia a BIZZ, tipos da tribo arrogância paulistana, que muitas vezes me irritavam com suas certezas beirando a assepsia, pra sacudir mesmo aquele salão VIP. E você, com seu ser livre de julgamentos, tornou-se o grande querido de todos e… deu no que deu.

Se eu tivesse que escolher uma palavra que te traduzisse seria “libertador”. Tu promovias a libertação dos artistas que te procuravam – e aqueles que descobrias –  das amarras de si próprios e do mundo.

Teu convite era: mergulha profundamente em toda a música que te habita até que te tornes um com ela, até que tudo que não é teu seja descartado e teu som desperte livre e, assim, verdadeiro. Todos que passaram pelo teu aconselhamento e foram contagiados por ti acabaram por encontrar a si mesmos e sua arte em estado bruto.

Além da liberdade, tu amavas o prazer… mas teu prazer não vinha da luxúria: era lúdico, criança faceira que fazia a gente se sentir em um eterno parque de diversões ao teu lado. Nunca te deixavas levar pelo sofrimento ou pela tristeza.

Lembro de um dia tentando falar de política contigo, eu ser inquieto, crítico, insaciável, me queixando do nosso Brasil, tu virastes pra mim, com toda tua graça, a me dizer: “mas Sonia, o Brasil é Macunaíma!”

Tão pouco te atormentavam questões que sempre me rondaram: de onde vim, pra onde vou, Deus existe? Pra ti, o pulsar alucinantemente colorido da vida já é, em si, uma divina beleza…E se Deus existe, Teu nome é Música.

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