Carta aberta a Samuel Rosa. Por Joaquim de Carvalho

Samuel Rosa

Caro Samuel,

Li atentamente sua carta em resposta ao um artigo meu, publicado neste site, e, embora você insinue que pratiquei mau jornalismo, não me ofendi.

Sei o que faço.

E se erro, assumo meus erros.

Mas não é o caso daquele artigo.

Além disso, quem atua profissionalmente na esfera pública — e jornalistas atuam — também estão sujeitos a críticas.

É o ônus da profissão.

Mas me permita dizer, respeitosamente, que você dirige sua mágoa ao alvo errado.

Se é verdade o que você disse, você deveria se indignar com Aécio Neves. Ele teria usado em 2014, sem sua autorização, um depoimento que você teria gravado em 2010.

Vamos relembrar o que você falou sobre ele:

“Esse aval fantástico de todas essas pessoas que estão aqui hoje é prova da importância do Aécio, da sua determinação, da sua vontade de fazer as coisas, do seu perfil político, e pode ter certeza, Aécio, que, onde você estiver, mesmo nos abandonando temporariamente, deixando o Estado de Minas Gerais, eu sei que você tem Minas como prioridade, guarda o Estado no seu coração, o seu Estado, o Estado da sua família, também o nosso. Mas saiba que nós também te guardamos no coração, e vamos te seguindo aí, vamos juntos, porque, assim como o Brasil, Minas também quer andar para a frente”.

No momento mais agudo da política nas últimas décadas, um testemunho tão contundente como este vai a público, sem sua autorização, e você não reclama?

Samuel, sua imagem tem valor em moeda sonante, como você sabe pela publicidade que faz. Se Aécio a usou sem sua autorização, ele foi desonesto.

Que oportunidade você perdeu para dizer ao Brasil o que todos agora sabem: Aécio é desonesto!

Mas, em vez disso, deixou a mensagem fluir — “te guardamos no coração, e vamos te seguindo aí, vamos juntos, porque, assim como o Brasil, Minas também quer andar para a frente”.

Samuel, a vida é feita de escolhas, e todos já fizemos escolhas erradas, e não devemos ser eternamente cobradas por ela.

Mas não podemos fingir que essas escolhas não existiram.

E um pouco de autocrítica não faz mal a ninguém.

Mas, em vez de dizer que errou ou que, vá lá, foi enganado, prefere argumentar que também apoiou candidatos de esquerda.

Você diz que já fez comícios para a candidatura Lula, Patrus Ananias, Arnaldo Godoy e tantos outros.

Não sei em que condição você fez estes comícios, mas, no passado, artistas participavam de eventos políticos porque a legislação permitia que fossem remunerados.

Os eventos eram chamados, inclusive, de showmício.

Não posso afirmar que tenha sido este o caso, mas dizer que apoiou candidatos petistas no passado como argumento para afastar o rótulo de aecista não funciona.

Até Aécio Neves já apoiou Lula.

Não disse que seu discurso no Rock in Rio foi raso, mas, sinceramente, não vejo profundidade nos discursos de combate à corrupção — quem é contra?

A questão é outra.

Corrupção é sintoma, não causa.

E este não é, decididamente, o maior problema brasileiro.

A sonegação e a desigualdade social são os nossos maiores problemas.

Mas poucos se fala sobre isso e pode apostar, Samuel, que desigualdade e sonegação são temas quase proibidos no País porque estão fora da pauta da grande mídia.

Não dão Ibope, e um artista precisa dele para seguir adiante.

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