Carnaval no Rio: um enredo sobre corrupção e Dilma na escola de um bicheiro. Por Kiko Nogueira

Dilma e outros corruptos no Sambódromo
Dilma e outros corruptos, segundo a Mocidade Independente de Padre Miguel

 

A Mocidade Independente de Padre Miguel capturou o espírito das ruas no desfile deste ano.

“O Brasil de la Mancha – Sou Miguel – Padre Miguel. Sou Cervantes. Sou Quixote cavaleiro, pixote brasileiro”, conseguiu juntar o cavaleiro da triste figura com os escândalos do governo.

Faz tempo que sambas enredo não juntam coisa com coisa. Em 1988, a Caprichosos conseguiu perpetrar o seguinte: “Lá vou eu, lá vou eu/Curtindo os bastidores/Descobrindo este universo/Tintim por tintim/Ô iaiá, seu vagalume, por favor/…/Com sutileza/O desenho animado surgiu/Tem comédia, tem piada/Musical com batucada”.

Mas coube à Mocidade denunciar tudo isso que está acontecendo aí. Homens e mulheres de bem saíram bailando no Sambódromo para transformar a luta contra os moinhos num embate contra ladrões da pátria.

Um cara fantasiado de Quixote batalhava contra plataformas de petróleo (!?!) iluminadas sutilmente com a cor vermelha. De dentro delas saíam engravatados com valises cheias de dólares.

Um carro homenageou a ditadura. Num outro, Dom Quixote encontra ratos. Num outro, ainda, aparecem Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e Ariano Suassuna (!?!).

Havia também um navio negreiro. Mas o melhor ficou para o final, com o carro “Lava Jato da Felicidade”, uma “esperança de um país melhor”, afirmam os autores. Num determinado momento, bailarinos sinistros com malas nas mãos fazem uma dança maluca com uma mulher num tailleur vermelho, todos misteriosamente sem cabeça.

Completando o quadro, um dançarino se apresentou com uma luva com um dedo a menos na mão esquerda. Gênio. O coreógrafo Jorge Teixeira diz que fez “uma representação do que mais incomoda hoje no país”.

Teixeira e seus colegas encontrariam matéria prima sobre banditismo em casa, mas isso exigiria coragem e menos indigência e malandragem.

O dono da Mocidade Independente — ou “presidente de honra” —, Rogério de Andrade, é um daqueles cidadãos que a imprensa carioca chama “contraventor”, um eufemismo maravilhoso que só o Rio explica.

É herdeiro de Castor de Andrade. De acordo com um perfil do jornal Extra do ano passado, tem um histórico exemplar.

Andrade tem uma pequena estatueta do Don Corleone em seu escritório na Barra da Tijuca. Um funcionário comenta que “mesmo nos tempos em que estava foragido, continuava sendo a palavra final nas decisões mais importantes da escola, como as rainhas de bateria”.

Adora ostentar. Comprou uma lancha no valor de 1,3 milhão de reais, gosta de praia em Ibiza e neve na Cordilheira do Andes. Tudo está publicado no Facebook, claro.

Segundo a reportagem, a ficha corrida traz: em 2008, condenação na 4ª Vara Federal Criminal por formação de quadrilha, corrupção ativa e contrabando. Na Justiça Federal, dois processos: um por lavagem de dinheiro e uso de moeda falsa. Ambos em segredo de Justiça.

Na esfera estadual, livrou-se de processo no qual respondia por ser mandante da morte do primo Paulinho Andrade. Em 2013, foi absolvido no 4º Tribunal do Júri. Os assistentes de acusação recorreram, requerendo novo julgamento, mas o Tribunal de Justiça não admitiu recurso.

Chegou a ser indiciado pela mentoria de outro assassinato, o de seu segurança Antonio Carlos Macedo. Em janeiro de 2012, a Justiça decidiu que não havia provas.

A palhaçada na avenida, como era inevitável, fez a alegria de milhares de revoltados online. A voz de um deles aparece no vídeo que posto abaixo, tendo orgasmos diante da valentia artística daqueles brasileiros.

É um retrato do espírito do golpista que quer matar o “molusco apedeuta” e vai protestar na Paulista ou em Copabacana. A corrupção é sempre originária de uma entidade abstrata, a culpa de qualquer coisa é eternamente exteriorizada e foi inventada agora.

Não é só a Mocidade, claro. O Carnaval do Rio — o oficial, da TV, que movimenta 2 bilhões de reais — é bancado pelo crime há décadas, tendo a Globo como sócia no papel de detentora dos direitos exclusivos.

“Se não fosse o dinheiro da contravenção, hoje não teríamos o maior espetáculo audiovisual do planeta. Agradeça à contravenção”, admitiu Neguinho da Beija Flor. Jamais houve uma discussão séria sobre isso e jamais haverá.

Parafraseando dois clássicos momescos: quanto riso, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão. Vendo a mangueira entrar todo ano, completaria um amigo.

Nas palavras do Dom Quixote de Padre Miguel: vai na fé, meu bom cangaceiro, lançando jatos de felicidade, vencer mais um gigante nessa história surreal, numa ofegante epidemia. Vem ser mais um guerreiro!

 

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