Caja Mágica, Madri

Djokovic e Nadal

A torcida espanhola é inconveniente, penso ali em minha cadeira na quadra Manolo Santana da Caja Mágica, onde está  sendo jogada a final do Masters de Madri. As pessoas conseguem aplaudir primeiro saque errado do jogador contra o qual estão torcendo.

Imediatamente penso na torcida do São Paulo e na do Palmeiras, igualmente inconvenientes.

Está linda a Caja Mágica, neste domingo tépido em que o sol aquece sem castigar. Flores com as cores da bandeira espanhola decoram a quadra. Chapéus amarelos da Schweppes podem ser vistos em grande quantidade nas arquibancadas. Peguei o meu, é claro. Pequenos cartazes azuis de apoio aos jogadores foram distribuídos também. “Soy de Nadal”, diz o que peguei. Rio ao ver uma jovem cujo cartaz dizia: “Soy de mim miesma”.

Antes do jogo, vou almoçar no restaurante dos jornalistas. Vejo passar a alguns metros Carlos Moya. Dois dias antes, eu tivera mais sorte. Quem passou por mim, depois de se classificar para a final, foi Vitoria Azarenko, a exuberante bielo-russa que ocupa uma das primeiras posições no ranking. Azarenka carrega um iPad, e anda à frente de alguém que me pareceu ser seu treinador. Ouço com clareza o que ela diz para ele: “Blablablá, blablablá”. Ela é maior que ele, com seu 1m80, e ele tem que se esforçar para acompanhar suas passadas.

Estou rindo no domingo. É meu aniversário, e acho que pela primeira vez na vida estou passando sozinho. Não que eu seja um devoto da solidão, não que eu não preze companhia.  Mas fico bem comigo mesmo. Estou feliz na Caja Mágica, mais velho, e cercado de uma multidão que não sabe que faço anos.

É a final que todos esperávamos, Nadal e Djokovic. Número 1 versus número 2.

Ambos ganharam jogos difíceis na véspera. Nadal bateu a nêmesis Federer. Djokovic teve que fazer mágica para ganhar do brasileiro Bellucci, a grande surpresa do torneio. Ballucci teve o jogo nas mãos. Deu um baile em Djokovic na primeira manga, set em espanhol. Bateu pesado na bola e Djokovic não conseguiu devolver as pancadas. Saiu quebrando na segunda manga e quando parecia que ia passar para a grande final entrou em colapso.

Detetive Schweppes

Na sala de entrevistas, pergunto a Bellucci o que triunfaria nele. A satisfação por ter feito uma grande campanha, ao longo da qual bateu dois Top 10 pela primeira vez na cerreira, ou a frustração por ter perdido uma partida que estava na mão. Não sei quando ele terá outra chance tão clara de bater Djokovic, que caminha firme para ser o número 1.

Bellucci, com seus ares de Ross de Friends – magro, alto, cabelos pretos –, diz que prefere ficar com a satisfação.  Não sei se vai conseguir, francamente. Eu ficaria com a frustração, com certeza. Não tinha visto jogar Bellucci ainda. Me impressionou o peso de sua bola. Desde Fernando Gonzáles eu não via alguém bater tão forte. Ele respondeu em espanhol ás perguntas de jornalistas locais. Falou com fluência. É bom seu espanhol, ou pelo menos melhor que o meu.

Djokovic parecia não saber o que fazer contra Bellucci.

Contra o maior jogador da história do saibro, Nadal, paradoxalmente, estava completamente à vontade. Nadal em nenhum momento incomodou Djokovic. Seu saque, sua direita, sua esquerda, nada machucou Djokovic. Apenas sua garra trouxe problemas. Não fosse ela, Djokovic teria ganhado com muita facilidade de Nadal. 7-5 e 6-4 dão uma idéia de um jogo mais disputado do que na verdade foi. Como nos seus primeiros tempos, os pontos de Nadal foram quase todos conseguidos com erros do adversário.

Tecnicamente, Djokovic é um jogador mais completo que Nadal. Não é um Federer, mas não está tão abaixo. Saca melhor que Nadal, bate mais forte, agride mais. A diferença entre eles está na cabeça. Nadal é simplesmente um prodígio mental. Jamais entrega um ponto, que dirá um jogo.

O que Djokovic conseguiu agora foi melhorar exatamente a cabeça. (Parece ser este também o caso de Bellucci.) Ele ganhou três finais seguidas contra Nadal porque passou a acreditar que pode ganhar.

Por isso deve virar, em breve, número 1.

Torci por Djokovic, talvez por me lembrar Guga, um jogador que surge num país improvável – Sérvia, no caso dele – e tem que enfrentar torcidas adversárias quase sempre.

Como um legítimo corintiano, gritei “juiz ladrón” no momento em que me pareceu que Nadal foi favorecido.  Me olharam com alguma estranheza. Mas não muita. Nas quadras da Espanha, você parece estar muitas vezes num campo de futebol.

O jogo terminou umas dez da noite. Esperei ver a premiação. Nadal mostrou que perde com classe. Djokovic foi também elegante e rápido. Iniciou com algumas palavras em espanhol, com as quais quebrou o gelo. Ambos elogiaram o trabalho dos pegadores, e gostei disso.

Enfrentei uma fila de meia hora para pegar um táxi e voltar ao Catalonia Plaza Mayor, o bom hotel em que me hospedei, na Calle Atocha.

Um dia perfeito como na música de Lou Reed, um aniversário sem bolo, sem velas – mas do qual jamais esquecerei.

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