Bresser: “Temer seria um desastre para a economia”. Por Pedro Zambarda

Bresser
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Membro fundador do PSDB por 23 anos, o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira se desligou do partido em 2011. Numa artigo para a Folha, escreveu que a legenda tinha se distanciado dos princípios da socialdemocracia que uniam seus quadros.

Além da política partidária, Bresser foi presidente do Banco do Estado de São Paulo (1983-85), Banespa, e secretário de governo Franco Montoro (1985-87).

Ficou conhecido como ministro da Fazenda do governo Sarney, em 1987, ao tentar executar o famoso “Plano Bresser” para reduzir a inflação do cruzado, moeda da época.

Professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ele se declara contra o impeachment e acha que um governo Temer dominado pelo PMDB seria um “retrocesso ao neoliberalismo” dos anos de Fernando Henrique Cardoso.

Em sua opinião, está em em curso um “golpe branco”, ou seja, uma manobra política baseada no “ódio de classe” e contra a Constituição nacional.

O DCM entrevistou Bresser-Pereira.

Como o senhor avalia a atual política econômica?

O atual ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, está adotando a medida possível para tirar o país da recessão após a gestão de Joaquim Levy. Qual é a providência fundamental? Ele passou a estimular fortemente o investimento público. Barbosa está tomando essas medidas não se preocupando com o aumento do superávit primário devido ao aumento do gasto. Ele continua fazendo ajuste fiscal na despesa corrente, mas isso melhora o investimento que beneficia a população.

Normalmente, quando se faz ajuste fiscal, o método mais fácil é cortar investimentos. Isso já aconteceu no Brasil no ano passado.

Em 2016, isso não voltou a acontecer porque o Nelson Barbosa não está permitindo. Pelo contrário, ele está tentando aumentar o investimento público e é corretíssimo fazer isso agora. Faz isso para manter a poupança pública sob controle. Há também um controle do gasto para retomar esse investimento que fortalece a cadeia produtiva.

Se o Banco Central e o governo não deixarem o câmbio se depreciar demais, a economia brasileira deverá sair da crise ainda neste semestre. Daí eles dizem “pô, mas os empresários continuarão a não terem confiança”. Eu acho isso uma grande bobagem, porque eles deveriam ter causas mais objetivas para se queixar.

Como assim?

A Dilma realmente cometeu um erro ao fazer desonerações fiscais para favorecer empresários. Esse foi um grande equívoco dela. Agora ela não está fazendo isso e, pelo contrário, está criando demanda para eles ajudando a população. Com esta situação, a hora é para eles se acomodarem. Se o impeachment não prosperar, eles precisarão deixar de lado essa luta de classes.

Estamos desde 2013, e isso ganhou força clara em 2014, num conflito de classes ao contrário. Ao invés dos trabalhadores estarem brigando para obter vantagens dos capitalistas, são os capitalistas que resolveram ir contra a prosperidade dos trabalhadores.

A crise econômica é só um elemento neste processo de a perda de confiança no governo por seus erros no plano fiscal, que ganhou destaque há dois anos. Outro erro foi segurar os preços do petróleo, que impactou a Petrobras, sem falar na contenção dos custos de energia elétrica que agora aumentaram.

Esses elementos são causas objetivas de perda de confiança, mas a luta entre as classes sociais vai além deste nível de discussão.

Os empresários acharam de alguma forma que eles não deveriam ser mais dirigidos por um partido de centro-esquerda. Aproveitando a crise de ordem moral no mensalão e depois no petrolão, eles perderam confiança no governo e decidiram que iriam recuperá-la de outro modo. Estão tentando fazer através de um impeachment.

O trabalho do ministro Barbosa será visto agora ou vai demorar um tempo?

Isso vai demorar um pouco para apresentar os efeitos mais visíveis na economia brasileira. Evidentemente que já é possível ver a depreciação cambial. O governo não pode deixar agora o real subir muito diante do dólar. Se isso acontecer, vai impactar os lucros das empresas.

Veja só, por que o setor privado rompeu com o governo em 2013? Você pode encontrar mil razões, mas uma pesa mais do que as outras. A taxa de lucro das empresas industriais foi para 14%. Naquele ano, estava em 15%. Essa variação é ridícula!

Por que esse rompimento ocorreu?

Eu costumo brincar que essa situação toda aconteceu porque algumas pessoas querem a apreciação cambial. Para eles, o PT criou o capitalismo sem lucro. Isso o Nelson Barbosa está careca de saber que é uma loucura absoluta. É fundamental para o nosso sistema que as empresas lucrem e continuem reinvestindo. Não é 15% de lucro, mas é de pelo menos 12%. Com a desvalorização do real diante do dólar e investimentos que recuperem o mercado brasileiro, os ganhos empresariais tendem a voltar ao normal. É a estabilização da demanda.

É desta forma que eles vão deixar de romper, vão deixar essa bobagem de confiança e vão voltar a investir. Assim as empresas retornam ao patamar de lucro anterior. A demanda interna e externa vão equilibrar com o câmbio no local correto. Assim ocorre um ajuste de fato.

E se assumir um governo Michel Temer por impeachment ou por golpe branco?

Se o Temer assumir, será um desastre para a nação e acredito que será pior para todos nós. Nada me leva a acreditar que eles têm mais confiança com o empresariado se comparar com a Dilma. Não há nenhuma razão boa para pensar diferente disso na economia. Se é para lutar pela corrupção, acho que a imagem do governo descrita pelo ministro Luís Roberto Barroso, do STF, está muito clara [“Meu Deus, essa é a nossa alternativa de poder?”, disse Barroso numa sessão do Supremo].

Você foi uma das pessoas que fundou o PSDB. A atuação dos tucanos ao apoiar o impeachment colabora para aprofundar a crise?

(Risos) Veja só! O PSDB, em primeiro lugar, virou um partido da direita. De centro-direita, se você não quiser chamá-lo de extrema-direita. Hoje é um partido sem nenhuma ideia de nação. É uma legenda que entende que a integração internacional do Brasil deve ser feita de forma subordinada, de cabeça baixa. Eu defendo a mesma coisa no capitalismo global, mas competitivamente e em alguns setores eu sei que os brasileiros trabalham de uma maneira melhor.

Isso é o que acho que tenho que fazer com nosso país e não acredito nas alternativas. Você até tem uma esquerda que quer fechar o Brasil, mas isso é ridículo do ponto de vista atual. Só que é igualmente ridículo o que o PSDB quer fazer.  E eles querem piorar nossa competitividade com taxas de câmbio apreciadas no longo prazo. Ou seja, o real forte diante do dólar.

Eu defendo um câmbio que zere o déficit em conta corrente, o oposto que os tucanos desejam. A ideia é deixar um pequeno superávit em conta. Só com essa diferença você fica com o câmbio no lugar certo da economia brasileira. O PSDB, da maneira neoliberal, não defende o populismo fiscal, mas sim o de câmbio.

Resumidamente: os tucanos defendem o dólar baixo a todo custo?

Querem, sim, o dólar barato. A única coisa que os tucanos falam com mais propriedade é sobre déficit nas contas públicas. Se eles chegarem a assumir o governo na atual situação, vão querer fazer um ajuste mais grave do que o atual. Levaria a mais desemprego, o que é uma loucura na nossa sociedade conforme ela evoluiu no tempo.

 

É contraditório, então, apoiar essa oposição que pioraria a crise econômica, certo?

Totalmente. Se a gente quer realmente sair do ajuste econômico com uma saúde financeira melhor, isso não se faz provocando cortes desnecessários. O Brasil precisa ter mais metas, incluindo na taxa de câmbio para deixar o país competitivo. Neste contexto, é bom ter uma meta de superávit de conta corrente de pelo menos 1% do PIB.

As duas iniciativas se completam e nos dão condições de ter competitividade global como é o caso de empresas em outros países. Para mim, nem a esquerda e nem a direita entendem isso ao certo. Os dois lados da nossa política acabam nos levando ao déficit em conta corrente. Fazemos um populismo cambial que acaba com pequenas empresas e deixa as grandes com pouco dinheiro para investir.

Para mim, o dólar deveria valer R$ 3,80. Menos do que isso será uma valorização da moeda brasileira que irá diminuir a atração do nosso mercado no exterior. Viveremos com a economia semiestagnada desde o Plano Real da Era FHC. Muitos acham que é necessariamente boa a ideia da moeda estrangeira estar no mesmo valor da nossa.

Há um boato forte de que, caso Lula assuma o ministério da Casa Civil, Nelson Barbosa entregaria o cargo para Henrique Meirelles. O que acha dissso?

Eu não acho que isso vai acontecer. Meirelles não vai para o governo, eu acredito. Sei que Barbosa tem boas relações tanto com o Lula quanto com a Dilma. No entanto, ele revelou independência no exercício do cargo e não fez tudo o que a presidente quis e nem o que o ex-presidente deseja. Ele está realmente disposto a fazer uma manutenção das despesas correntes do governo.

A ideia de ter Henrique Meirelles no lugar dele, com este trabalho em curso, é improvável.  Além do que sai na imprensa, não enxergo nenhum outro indício mais sólido. Tenho conhecimento de que o Lula pensou nesta hipótese antes, especialmente no meio da crise de 2015. No entanto, acredito que este assunto agora está superado.

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