O brasileiro tem raiva da felicidade do dinamarquês

Isto é Copenhague

PAREI UM INSTANTE. Estava a uns cem metros da Biblioteca Real, em Copenhague, um prédio que simboliza o espírito da cidade: arrojado, inovador,jovem, informalmente elegante. Alegre.

Era tempo de voltar para Londres.

Olhei para trás. Respirei fundo, como meu filho Emir na noite em que se despediu do luminoso de Picadilly e de Londres, os olhos fixados nas imagens piscantes e a mente nas pessoas e nos lugares que fizeram a temporada londrina ser para ele o conto de fadas que foi.

Volto para cá, pensei. As espreguiçadeiras ao lado da Biblioteca, onde passei parte de uma manhã de sol delicado lendo diante das águas de um canal rasgado, de vez em quando, por lanchas e embarcações turísticas. “Aqui é minha tribo”, pensei, vendo o grupo silencioso de leitores perto de mim.

Copenhague me fascinou por razões mundanas e espirituais. Como passar o resto da vida sem comer o cachorro quente de Copenhague, em que a salsicha é colocada numa espécie de furo feito no pão de alto a baixo? Não é o corte tradicional que o divide em dois. Como nunca mais comer o pão doce de massa folhada?

Posso com certeza passar sem os pratos vanguardistas da cozinha dinamarquesa, tão admirados mundialmente. Um restaurante de Copenhague, o Noma, acaba de ser eleito o melhor do mundo. Vivo sem o Noma. Mas mereço mais cachorros quentes e pães doces de Copenhague antes de morrer.

É belo ver a procissão de bicicletas na cidade. Elas dão um ar único a Copenhague. Fazem-na a cidade mais interessante do mundo hoje. Homens, mulheres, crianças, velhos, a cidade toda pedala. Muitos buscam saúde e economia nas despesas, alguns diversão. As bicicletas são bonitas, simples e inventivas. Um cesto na frente permite aos homens colocar sua valise executiva e às mulheres a bolsa. Algumas bicicletas têm um banquinho especial para bebês e crianças pequenas. Nos finais de semana, é comum ver famílias passeando de bicicleta.

Entre a calçada dos pedestres e a rua dos carros, há um espaço reservado para elas. Um pequeno desnível separa a calçada desse espaço. Numa caminhada, tropecei no desnível e desabei. Soube cair. Deixei meu corpo rumar para o chão de Copenhague, me ergui dignamente e segui, ligeiramente arranhado na mão direita.

Meu inesquecível tombo dinamarquês.

Não, não foi captado por este vídeo caseiro, feito diante da Biblioteca real.

De tudo, o que mais me encantou foi a Janteloven. As Leis de Jante, uma cidade imaginária criada em 1933 por um escritor de dupla nacionalidade, dinamarquesa e norueguesa. São dez as leis, mas essencialmente elas se resumem numa linha: você não é melhor que eu e eu não sou melhor que você.

Há um debate em torno da Janteloven. Algumas pessoas vêem nela um aspecto negativo. Uma treinadora de uma equipe feminina de um determinado esporte certa vez provocou celeuma ao usar roupas nas quais estava escrito: “Foda-se a Janteloven.” Ela queria que as jogadoras quisessem ser umas melhores que as outras.

Mas tenho para mim que a Janteloven é o maior motivo para que a Dinamarca, sistematicamente, fique em primeiro lugar em estudos destinados a aferir o grau de felicidade das pessoas nos países. Não se sentir diminuído diante de ninguém faz bem à alma.

Uma funcionária de um museu nos arredores de Copenhague imprimiu, para mim, a página da Wikipedia que fala da Janteloven. Com a caneta, acrescentou que o código induz à modéstia e ao desprendimento material.

Concordo.

Júlio César tinha um servo incumbido de ficar lembrando-o de que era careca. O objetivo era que ele jamais esquecesse que, no fundo, era um ser humano. Como todos nós. Quando os traidores o apunhalaram, encontraram o corpo frágil de um homem e não a carne inexpugnável de um deus. Sangrou, morreu, virou pó como o homem que limpava seu banheiro.

A Janteloven tem o mesmo efeito. Ela limita egocentrismo e megalomania, duas fontes poderosas de sofrimento. Sem contar que, quando existe uma cultura dessa natureza, é difícil imaginar cultos à personalidade que resultem em tiranos como Stálin, Hitler, Mao Tsetung ou Fidel Castro.

Curiosamente, as únicas pessoas em que percebi raiva da Dinamarca eram do Brasil. Algumas escreveram mensagens em meus textos sobre Copenhague. Uma mulher de meia idade, que encontrei por acaso no avião a caminho de Londres, disse que os dinamarqueses mentem quando dizem que são felizes. Ela está há oito anos na Dinamarca. É casada com um nativo. Imagino que o casamento não vá bem.

Tenho para mim que três coisas explicam o amargor de brasileiros em relação à Dinamarca. A primeira é a saudade das pessoas e lugares queridos. A segunda, a falta que o sol faz. Entre outubro e fevereiro, a Dinamarca sabe ser fria. A terceira é uma neurastenia própria do brasileiro, uma eterna insatisfação que o faz projetar no mundo exterior a culpa pela melancolia interior.

Os dinamarqueses enxergam a vida de outra maneira. E são mais felizes por isso. Ou menos infelizes, se você for mais cínico.

Gostei. Gostei muito. Quero voltar.

Tenho que voltar.

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