Ato em Curitiba foi um sucesso, com uma mensagem que o jornalismo de guerra é incapaz de mostrar. Por Joaquim de Carvalho

Basta ver as fotos para concluir que o ato de ontem em Curitiba foi um sucesso. Tinha muita gente, certamente não os 50 mil anunciados pelos organizadores, mas tampouco os 2 mil informados por alguns veículos da velha imprensa ou os 5 mil calculados pela Polícia Militar.

Mais importante que os números, porém, foi o simbolismo do ato. Pela primeira vez desde a campanha das diretas, todas as centrais sindicais se reuniram para uma única manifestação, com duas causas em comum: liberdade para Lula e a resistência às reformas trabalhistas, que atingiram em cheio a sobrevivência de muitos sindicatos.

Quem esteve no ato ficou satisfeito com o número de participantes e, principalmente, com o clima da manifestação, a energia de quem foi até lá. Nesse sentido, duas fotos de Ricardo Stuckert, o fotógrafo oficial do Lula, chamam a atenção: uma é de uma menina segurando uma planta, a outra é de um menino, nos ombros do pai, com as mãos para cima.

Também chama a atenção a foto da cantora Beth Carvalho, idosa em um veículo auto-motor, rodeada de outras mulheres.

Manifestações têm um enredo, e este foi da solidariedade. Sem violência, distante do ódio, o que é surpreendente depois de uma semana em que os ataques a Lula e seus apoiadores tiveram até tiros.

No caminho entre a vigília perto da Polícia Federal e a praça Santos Andrade, em Curitiba, os manifestantes eram recebidos com aplausos da janela dos prédios. O clima era amistoso. O ato em Curitiba foi um acontecimento. Uma festa.

Menos para repórteres da velha imprensa, que foram hostilizados — ninguém agredido, apenas tratados como alguém que não era bem-vindo. E não eram mesmo. Difícil para eles.

Estavam lá a trabalho, mas não se pode ignorar que representam empresas que deixaram de fazer jornalismo imparcial. Na verdade, fazem campanha de guerra. Terão que conviver com isso. Alguns foram para locais distantes dos manifestantes, para gravar seu comentário — passagem, no jargão de TV.

A repórter da Globonews preferiu um lugar ainda mais distante, a sacada de um prédio, e mostrava de lá os manifestantes.

Lula, mesmo distante, parecia presente. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, leu uma carta aos brasileiros.

“É com tristeza que vemos a economia patinar, conquistas democráticas serem revogadas e a maioria da população fazendo sacrifícios diariamente. O direito ao trabalho, a proteção da lei, ao estudo, ao lazer tem sido cada vez mais restritos. A mesa já não é farta, e até para cozinhar o pouco que tem muitas famílias catam lenha porque não podem mais pagar o bujão de gás”, afirma.

Na mesma carta, Lula diz:

“Vocês se lembram da prosperidade do Brasil naqueles tempos. Quando o Brasil ia bem e parte da imprensa reclamava o tempo inteiro. Agora o Brasil vai mal e os mesmos falam em ‘retomada da economia’. A sabedoria popular contra essa propaganda massiva, em especial das Organizações Globo, que controlam a maior parte das comunicações desse país, revela-se nas pesquisas, onde o povo mostra que sabe o caminho para voltar a ter um Brasil melhor, com mais inclusão social, democracia e felicidade.”

Muito parecido no 1o. de Maio de 1986, num discurso em que ele lembrou da perseguição que sofreu por lutar por conquistas sociais, inclusive com cadeia. E, naquela época, prometeu continuar na trincheira.

“Eles com a Globo e a gente com vocês. E com vocês a gente jamais vai perder uma parada. E, por isso, este 1o. de Maio é importante, porque o governo pensava que não ia ter ninguém. E aqui tem jovem, tem adulto, tem velhos, tem mulheres, tem todo mundo aqui. Por isso, companheiros, eu queria terminar dizendo uma coisa para vocês: se alguém aqui hoje, neste 1o. de maio de 1986, merece algum mérito, esse mérito é de vocês, que tiveram coragem de colocar a cara para fora e lutar contra a opressão que o governo está fazendo no campo econômico e de lutar por igualdade para a classe trabalhadora”.

Em seguida, Lula pede que todos levantem as mãos, para mostrar que “os trabalhadores estão de pé, como sempre estiveram”.

A cena era como se tivesse sido registrada ontem, em Curitiba, mas era de 32 anos atrás. Lula termina com uma frase tirada do Hino da Proclamação da República: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”.

O vídeo é do documentarista Celso Maldos, inédito até ontem, quando foi liberado para ser exibido nas manifestações. “Fiz esse vídeo pra ser projetado no 1o. de maio em Curitiba, está sendo distribuído para ser exibido em atos por todo o país e no exterior. Onde não for possível projetar o vídeo, envio só o áudio. A ideia é, ainda que preso, termos o Lula presente nos Primeiro de Maio em toda parte”, explicou o documentarista, que acompanhou Lula nos anos 80 e 90.

A fala de Lula é atual porque Lula é, de fato, uma ideia, como ele mesmo disse em seu discurso mais recente. A frase, dita por Lula, nunca foi tirada de marketing, como Fernando Henrique Cardoso e outros entenderam.

Lula sempre foi uma ideia. Ou uma causa. E as ideias, expressas a seu tempo, são invencíveis e, como tal, não podem ser aprisionadas.

Veja o vídeo:

 

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