As mentiras convenientes no caso Marielle. Por Nathalí Macedo

A morte de Marielle Franco foi chocante o suficiente: no dia do ocorrido, não consegui dormir direito.

Não que eu duvidasse da existência de mortes políticas em um Brasil de ditadura velada, mas às vezes a realidade bate na nossa cara com muita força (como com nove tiros em uma mulher preta de esquerda).

O que sucedeu a morte, entretanto, deu conta de complementar o choque: primeiro, descobriram o óbvio: os projéteis que mataram Marielle faziam parte de um lote comprado em 2006 pela Polícia Federal.

“Os projéteis foram extraviados nos correios”, disse o governo – nota: a polícia não compra projéteis pelo Mercado Livre.

Aliás, os Correios negaram essa versão esdrúxula.

Ainda assim, houve quem acreditasse, como houve quem acreditasse que Marielle era financiada pelo Comando Vermelho (de onde tiraram isso? é uma pergunta sincera), que fora envolvida com um traficante de drogas (e se fosse?), e que morreu pelas mãos dos bandidos que defendia.

Não, ela morreu pelas mãos dos bandidos que os fascistas brasileiros defendem.

Todas as mentiras estapafúrdias sobre a morte de Marielle encontraram, prontamente, uma legião de crentes que, na verdade, esperavam apenas uma oportunidade para fazerem o que sempre fazem quando uma mulher é morta: o velho linchamento pós-morte.

Não importa o peso dos argumentos ou o quão ridículos são: para relativizar a criminalização da esquerda, que é real no Brasil, qualquer argumento serve.

Não interessa se Marielle defendia bandidos – nota: defender os direitos humanos é diferente de defender bandidos -, não importa com quem se relacionava, não importa como se elegeu.

O que importa é que houve uma – mais uma – morte política no Brasil, e mais chocante que isso é o fato de que, diante disso, as pessoas se ocupem com frivolidades, como se não entendessem – prefiro crer que não entendem – a gravidade da situação.

Diante de tantos argumentos rasteiros e de tanto linchamento, tratar o caso Marielle como mais um feminicídio é anular a verdade mais importante e mais perigosa: não foi um feminicídio, foi um crime político.

Marielle não morreu por ser mulher preta, morreu por peitar gente poderosa e com sangue nas mãos, morreu por defender o que acreditava, foi executada em razão de sua atuação política.

E, uma vez morta, tornou-se, para a direita fascista, mais um alvo de linchamento pós-morte e, para a esquerda, mais um mártir.

De quantos mártires ainda precisaremos para reagirmos?

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