‘Aquarius’ está muito além de seu peso político. Por Nathali Macedo

Sonia Braga em Aquarius
Sonia Braga em Aquarius

Eis uma coincidência providencial: o aclamado ‘Aquarius’ estreou no Brasil justamente nesta incendiária semana em que o golpe se concretiza.

Embora seja louvável que tenhamos no Brasil uma equipe que vê na resistência criativa uma boa alterntiva diante do golpe corajosamente denunciado em Cannes, reconhecer o longa apenas pelas polêmicas que passaram a permeá-lo e pelo seu peso político seria injusto e desonesto: Aquarius vai muito além disso.

A história da escritora Clara, que resiste em desocupar o edifício em que mora, em Boa Viagem (Recife), mesmo diante de todas as investidas de uma grande construtora representada por Diego (Humberto Carrão), que pretende substituí-lo por um luxuoso empreendimento, nos conduz a um inevitável e necessário choque geracional entre a preservação da memória e a promessa de modernização e higienização que transforma as cidades – e as pessoas – em fantasmas frios e sem vida.

Essa dualidade – em torno da qual se alicerça toda a história – é expressa da maneira mais tocante e sensível possível, com uma força que se mostra justamente na beleza das sutilezas.

A sutileza pungente é, aliás, o que mais claramente caracteriza Aquarius, que toca com naturalidade em pontos no mínimo delicados para a sociedade brasileira ainda tão conservadora: Revolução sexual feminina, câncer de mama, questões raciais e de gênero, a arrogância da jovem burguesia brasileira, a tendência moderna a esvaziar de sentido e de memórias todos os espaços… Está tudo posto, com uma sutileza grandiosa que contrasta com os ânimos tão exaltados de uma atmosfera política adstringente.

O humor também sutil contido no longa faz jus a um parágrafo inteiro: A comicidade comedida ora suaviza, ora amplifica as tensões naturais de uma história tão densa. O humor pontual – que, de tão sutil, pode, mas não deve passar despercebido – está carregado de significado, exatamente como pede esta geração.

A atuação plena de Sônia Braga, por outro lado, dispensa comentários. Não é injusto dizer que ninguém jamais incorporou com tanta maestria a beleza da maturidade.

Clara é uma representação justa e honesta da mulher dos novos tempos: lúcida, autêntica e bem-resolvida, uma personagem que sai do lugar comum, que saúda a beleza das memórias e as marcas do tempo e personifica a resistência que estes tempos sombrios nos têm exigido.

Não por acaso, o diretor Kleber Mendonça Filho jamais concebeu um protagonista homem para o longa. “Aquarius não seria tão forte se não fosse uma personagem mulher.”

A sensualidade presente na personagem não remonta, sequer minimamente, a sexualização fetichista que o cinema comumente atribui à mulher. É, antes disto, a inevitável sensualidade da própria Sônia, incorporada com naturalidade a uma personagem completa.

Talvez seja esta a grande questão – fico tentada a pensar – em torno do boicote do Ministério da Justiça ao estabelecer uma classificação indicativa de 18 anos para o filme, justificada em uma “situação sexual complexa”: a sexualidade feminina não é fetiche. Trata-se, antes disso, de uma libertadora e sutil constatação, apenas posta diante de nossos olhos, sem nenhum pretensiosismo, para que lembremos que mulheres não estão adstritas à sexualidade, tampouco dela estão isentas, o que certamente incomoda aos setores conservadores para os quais a sexualidade feminina não pode ser expressa se não estiver a serviço do deleite masculino.

A classificação foi, inclusive, reduzida para 16 anos, e não poderia ser diferente. O que pode ser lido em Aquarius como sexo explícito é, sob um olhar mais atento, um simbolismo – que obedece a medida do necessário – acerca da revolução sexual feminina.

Se os personagens são um presente e a história simplesmente nos desnuda enquanto povo brasileiro, a trilha sonora é um espetáculo à parte. Nenhum filme jamais honrou tanto a música brasileira: Gil, Bethânia, Taiguara e Ave Sangria simplesmente conversam com a história.

Talvez o peso político de Aquarius tenha uma explicação simples, embora jamais reducionista: falar de política significa falar de nós mesmos. E não há melhor maneira de fazê-lo – neste momento em que uma mulher é injustamente destituída da presidência – do que através de uma personagem como Clara: uma mulher de 65 anos disposta a lutar pela preservação de seu direito de ser quem é, de permanecer onde sempre esteve, de preservar o que lhe é importante, de resistir a uma cruel e higienizadora verticalização.

O Brasil ganha de presente um filme capaz de dissecá-lo e traduzi-lo com toda a elegância de uma protagonista que contempla irretocavelmente o sentimento de uma geração que, a duras penas, se redescobre.

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