Aos que festejam a prisão de um homem num hospital: e quando for você? Por Kiko Nogueira

Operação-Lava-Jato

 

O filósofo Vladimir Safatle deu uma entrevista ao programa do DCM na TVT em que formulou uma reflexão sobre a divisão da nossa sociedade.

“O Brasil encarou de uma vez por todas que não é um país. É completamente dividido. Nunca foi um país. Apenas ocupamos o mesmo território”, disse.

“Nós nem sequer conseguimos constituir uma narrativa unificada sobre a ditadura militar, uma linha vermelha dizendo que ‘daqui’ não passará e isso nunca mais ocorrerá”.

Esse limite não foi estabelecido no golpe de 64 e, aparentemente, nem com os abusos da Operação Lava Jato. Nós somos, ao que tudo indica, a terra do vale tudo.

A quantidade de gente aplaudindo a onipotência de Sérgio Moro e seus homens há meses, em nome da Justiça, é um sinal preocupante.

É tudo legal, as instituições estão funcionando. Para ficar num exemplo óbvio, o Holocausto era legal na Alemanha.

Todo cidadão deve ter garantida sua possibilidade de se defender contra o estado.

Para quem está feliz com o show de autoritarismo, a pergunta a ser feita é: e quando for com você? E quando for com a sua família?

E se o seu advogado for grampeado?

E seu o seu filho ou o seu pai forem conduzidos coercitivamente a uma delegacia?

E se a sua mãe ou a sua mulher tiverem um processo vazado?

E se você for preso num hospital, enquanto acompanha alguém que está sendo submetido a um tratamento delicado?

O advogado de Mantega apontou que “as liberdades públicas e individuais estão sequestradas no Brasil e o cativeiro delas é no estado do Paraná, em Curitiba”.

Chegamos à era em que uns são mais iguais que outros. Era isso o que queriam?

O limite que não houve na narrativa na ditadura se esgarçou continua não existindo hoje. Uma sociedade sadia já teria dado um basta.

Mas o Brasil não é uma sociedade sadia.

 

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