Aloysio quer se livrar da pecha de golpista depois de tentar reescrever seu passado. Por Kiko Nogueira

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Aloysio Nunes, ex-vice semioculto do candidato derrotado Aécio Neves, tem uma obsessão reveladora. Como Cristovam “Colombo” Buarque, está incomodado com a pecha de “golpista”.

De acordo com Aloysio, em sua vez de inquirir Dilma no Senado, o país vive um momento de “paz e tranquilidade”. Temos “direito de manifestação” (ele passou batido na Olimpíada), a imprensa registra os fatos e mostra todas as opiniões (sim, de um mesmo lado).

Estamos “saindo da crise”. João Goulart “não tinha a quem recorrer”.  “Então eu indago: como, golpe?”, quis saber.

Dilma deu uma resposta que eu simplifico: ainda não é golpe. Será a partir do momento em que os senadores aprovarem o impeachment. Aí, então, ela recorrerá ao STF.

Aloysio está muito preocupado com o Brasil. Líder do governo interino, é investigado no STF, acusado de receber 500 mil reais da UTC Engenharia para obter contratos na Petrobras.

E Aloysio tem um passado que o aproxima de sua antagonista e que foi escondido pelo PSDB em 2014 para agradar às hostes neomacartistas.

O TSE chegou a aplicar uma multa à chapa tucana de 40 mil reais por oito inserções na TV em que o nome dele não aparecia. “Revela-se impossível que o candidato não teve ciência do conteúdo da publicidade veiculada nas inserções impugnadas, tendo em vista que, repise-se, fora apresentada por ele próprio, muito próximo à realização do pleito”, escreveu o ministro Tarcisio Vieira de Carvalho Neto.

No site oficial da candidatura, deram um tapa em sua biografia. “Com 18 anos, entra no movimento estudantil e inicia sua militância política nos momentos que precederam o golpe de 64. Filia-se ao MDB em 1966, logo após sua fundação. Presidiu o Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP, em 1967. É perseguido pelo governo militar e parte para o exílio na França, onde vive por 11 anos. Mesmo distante, denuncia as violações aos direitos humanos praticados contra os opositores da ditadura brasileira. Com a anistia, voltou ao Brasil e participou da fundação do PMDB”.

É uma edição marota.

Aloysio militou na luta armada pela Ação Libertadora Nacional. Dilma era da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares).

Ele conheceu seus companheiros quando presidiu o Centro Acadêmico XI de Agosto. Era filiado ao clandestino PCB.

A ALN era liderada por Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira. “Ele [Marighella] tinha uma confiança muito grande no Aloysio. Era muito bem quisto por ele. Falava muito bem do senador, que já era muito culto”, disse a ex-militante Iara Xavier Pereira à Carta Capital.

“Mateus” — seu nome de guerra mais usado — era motorista do chefe. Em 1968, participou do assalto ao trem pagador da extinta estrada de ferro Santos-Jundiaí.

Aloysio teria dirigido o carro da fuga, levando malotes de dinheiro. Também tomou parte do assalto ao carro-pagador da Massey-Ferguson na praça Benedito Calixto, em Pinheiros.

Foi mandado a Paris com um passaporte falso. Condenado pela Lei de Segurança Nacional, virou representante da ALN no exterior. Fez um acordo com a Argélia para treinar brasileiros na guerrilha.

Em 1979, assinada a Anistia, voltou ao Brasil. Desfiliou-se do PCB e entrou no MDB e depois no PMDB, onde começou uma carreira bem sucedida. Foi deputado estadual de 1983 a 1991 em SP, e vice-governador na gestão de Luiz Antônio Fleury Filho.

Em 1997, filiou-se ao PSDB. No governo FHC, foi ministro da Justiça e secretário geral da presidência. Quando Serra era governador, Aloysio ocupou o cargo de chefe da Casa Civil. Em 2010, elegeu-se senador com o recorde de 11 milhões de votos.

Aloysio é natural de São José do Rio Preto, interior paulista. Há uma estrada com seu nome na cidade (SJR-419). Ele é dono de uma fazenda na vizinha Pontalinda.

Em maio de 2009, a polícia militar encontrou um tambor de leite com 19 quilos de pasta base de cocaína, 515 gramas de crack e 13 cartuchos para pistola numa área isolada da propriedade.

“O doutor Aloysio é vítima”, disse o delegado Antônio Mestre Júnior, chefe da Polícia Civil na área de São José do Rio Preto, à Folha. “Os criminosos escolheram a propriedade pela sua localização geográfica e facilidade de esconderam a droga ali”.

No “Diário”, publicação de Rio Preto e arredores, a assessoria do então secretário de Serra declarou que “foi o namorado da filha de seu caseiro, um policial militar, que suspeitou da movimentação e acionou a polícia”. A droga, incinerada de acordo com o delegado Mestrinho, valia 800 mil reais. A história morreu aí.

“Fui mais longe do que ela [Dilma]. Mas isso não me impede de hoje ter uma visão absolutamente crítica, não só da tática, mas da concepção desses movimentos”, disse ele há dois anos. “Atacávamos a ditadura por uma via que não era democrática.”

Aloysio fez sua autocrítica dos anos de guerrilha e/ou terrorismo. Dificilmente repetirá o gesto depois de ajudar a degolar Dilma.

 

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