A Vogue Brasil acha que o mundo é uma passarela cor de rosa

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A revista Vogue Brasil acaba de publicar uma campanha de apoio aos jogos paralímpicos da Rio 2016. Bacana? Nem tanto.

A imagem principal traz os atores Cléo Pires e Paulo Vilhena ‘amputados’ pelo Photoshop para simularem atletas verdadeiros (no caso Bruna Alexandre, do tênis de mesa, e Renato Leite, do vôlei sentado). De quebra, os globais foram nomeados embaixadores da competição.

Por que diabos alguém tem uma ideia dessas? Existe maior desrespeito? Por que não deram a chance dos verdadeiros protagonistas serem fotografados?

A instituição financeira americana Citi, por exemplo, patrocina a equipe paralímpica dos EUA e fez um belo filme comercial com a atleta paralímpica Scout Basset. Em câmera lenta, vemos o esforço da jovem durante uma corrida. E o discurso do comercial é por aí: o empenho, a dificuldade. Legítimo, certo?

A alegação da publicação brasileira é ‘representatividade’. Ora, pergunte a um negro o que ele pensa sobre alguém que pinte o rosto de preto. A tal blackface é repudiada e frontalmente contestada a cada oportunidade em que algum desses desavisados acredita estar sendo solidário ou ‘representando’.

Acompanhada da hashtag #SomosTodosParalímpicos, a revista desejava ‘atrair visibilidade’ e impulsionar as vendas de ingressos para os jogos paralímpicos, mas o tiro parece ter saído pela culatra. Os comentários na publicação são de reprovação. E não é para menos, a grosseria foi imensa.

Curioso é que em março deste ano, a mesma Vogue Brasil publicou um ‘babado’ no qual a modelo Iggy Azalea criticava a Schön Magazine (uma revista inglesa do mundo fashion) pelo uso excessivo de Photoshop nas sua fotos. Havia ficado magra demais. “Eu adoro a revista, mas prefiro a foto antes deles colocarem Photoshop para fazer com que minhas coxas e quadris parecessem mais magros”, postou a beldade em seu twitter. Para criticar um concorrente, a Vogue foi no embalo.

Em uma de minhas primeiras matérias aqui no DCM há alguns anos, entrevistei Kica de Castro, uma fotógrafa especializada em fotografar ‘deficientes’. Sim, lá aprendi que pode-se dizer ‘deficiente’ sem insultá-los. “Simples assim”, ensinou-me. Lá percebi que o ‘coitadismo’ não é bem vindo e que ‘portador de necessidades’, assim como a palavra ‘especiais’, não são usados. “Existem grupos que ficam até bem ofendidos com esses termos”, disse Kica.

Mas a revista da Editora Globo preferiu escalar um fotógrafo top, encomendar a uma agência de publicidade top (Africa), atores globais top e, claro, mesmo depois da participação de todo esse elenco celestial, é preciso dar um tratamento digital na imagem à base de muito Photoshop para ficar tudo bonito, limpo e cheiroso.

O mundo real não é com eles. Nunca foi.

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