A sabedoria de Ney Matogrosso e o talento de Dan Nakagawa

Ney e Dan no palco
Ney e Dan no palco

 

Cheguei no Na Mata Café por volta das 18hs. Carla, uma das produtoras do show, me disse que Ney Matogrosso e Dan Nakagawa teriam um tempo entre a passagem de som e o começo do show para uma entrevista. Corri.

O Na Mata é uma boa casa de shows de São Paulo. Fica no Itaim. Na primeira vez que fui lá, assisti ao show de Jair Oliveira (que na época ainda atendia por Jairzinho). Ele tinha uma banda de jazz – muito boa – e uma versão de “Superfantástico” superfantástica.

Posteriormente, toquei no Na Mata. Depois briguei com o pessoal – para o meu gosto, eles tinham regras de mais e espaço de menos para diálogo. Um pouco mais para frente, sem hard feelings, voltei à casa para assistir e conhecer o Double You, um cantor muito importante da minha pré-adolescência. E hoje, fui conhecer os dois artistas em questão.

Ney Matogrosso todo mundo sabe quem é. E Dan Nakagawa? É um compositor excelente, com trabalho consistente e bem bonito. Há alguns bons vídeos no Youtube. Ele vive de música, mas não dos shows de fato. Trabalha com jingles, trilhas, composição, e tem planos de montar um musical.

É um cara interessante e simpático. Tem 38 anos e é dono de um dos ternos mais bonitos que já vi. Batemos um papo enquanto Ney conversava com uma turma da Veja, ou do Canal Brasil, não tenho certeza. Discutimos algumas coisas de mercado. Ele pareceu gostar da vida de artista indie.

Quando Ney se sentou conosco, estava um pouco aflito. Parecia cansado das entrevistas e com vontade de ir logo se concentrar. Mas manteve-se sorridente, inclusive da mesma forma com que se manteve durante todo o show.

A pedido de Luis Felipe Lex, editor do El Hombre, eu iria escrever algo sobre o Ney, de forma que pudéssemos usar o trocadilho Hombre com H – em referência à música “Homem com H”. Então, aquilo era tecnicamente uma entrevista. Mas como eu não sou jornalista, preferi simplesmente falar de música – que é o que eu sempre soube fazer. E nessa área, eu sei que teria coisas muito interessantes para ouvir.

Perguntei qual era o elo artístico que eles tinham. “Admiração mútua”, respondeu Ney. Eu não esperava essa resposta. Normalmente, quando se tem um artista da magnitude de Ney Matogrosso dando uma mão para um jovem talentoso, existe um desequilíbrio de admirações. Mas ali, era claramente uma via de mão dupla. Dan concordou com a resposta de Ney. Perguntei se havia muito tempo que eram fãs um do outro. “Nos conhecemos há 10 anos”, responderam quase em uníssono.

Lembrei do que Dan e eu conversávamos antes de Ney chegar. “Nós falávamos sobre o tamanho que você teve nos anos 70, Ney. O mercado mudou muito de lá pra cá?” A resposta: “Essa indústria não existe mais. É outra coisa. Houve um momento em que ela pôde reagir à pirataria e não reagiu. Então agora não há o que fazer, a não ser se adaptar aos novos tempos e vender disco pela internet”.

Perguntei se ele gosta mais da forma que a coisa se tornou ou se preferia como era antes. “A música era mais difundida”. O mercado era mais profissional? “Era”. Ele contou de quando saia em excursão com os Secos e Molhados, passando por todas as estações de rádio sem pagar jabá.

Pensei nas novas formas de divulgação, já que falávamos em indústria. Falei algo sobre o disco que eles estavam lançando juntos. Fui corrigido. O disco era do Dan. O Ney apenas participava dele. A Carla de fato havia me dito isso. Falha minha. Mas a pergunta independia disso. Como eles pretendiam usar esse material nessa nova mídia, dessa nova forma, para vender esses discos na internet?

Dan respondeu essa. “Eu acho que é espontâneo. A gente não pensou em fazer clipes para jogar na internet. Acho que vai ser bem espontâneo. E é mais legal assim”, disse. “É bom quando uma pessoa gosta da música e coloca ela na internet por que gosta. Acho que a força está aí”, completou.

“E a velocidade”, acrescentou Ney. “Não duvido que alguma imagem da nossa passagem de som já não esteja na internet”.

O papo estava bom, e começando a esquentar, mas a Carla pediu para que eu liberasse os rapazes para irem se concentrar. Dan parecia mais tranquilo; Ney mais agitado, embora parecesse gostar do papo. Entendo perfeitamente o quanto é importante se concentrar para fazer um bom show, mas não podia decepcionar o Lex. “Ney, vou escrever algo sobre você no El Hombre. O que você poderia dizer para os nossos hombres?”

Eles riram. “Eu mal sei de mim”, disse. “Eu toco a minha vida com as minhas antenas”. Ele fez com as mãos uma menção de ter antenas, como se fosse um grande besouro magnético. “Não tem fórmula, não tem mapa. A única coisa que eu faço é comer pouco e fazer ginástica”.

Tenho a sensação de que nenhum de nós três notou ali o tamanho do que Ney Matogrosso acabara de dizer. “A vida não tem mapa”, mas se eu puder te sugerir uma diretriz para ela, “coma pouco e se exercite”. Uma pequena pérola despretensiosa da vida sadia e vivida sem medo. Certamente essa é uma das razões de sua longevidade – aos 72 anos, está em forma, e canta como se tivesse 30.

Então, eu assisti ao show com uma grande companhia ao lado. Depois, fui embora. Cheguei em casa no andar de cima do meu estúdio, desejando vida longa a Ney Matogrosso e sucesso a Dan Nakagawa.

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