A luta de uma mulher contra o lixão milionário que pode destruir seu bairro

Cátia, cercada dos filhos e do neto
Cátia, cercada dos filhos e do neto

 

O longo dia de Cátia Cilene de Oliveira Souza começa às 3 da manhã. Separada, 40 anos, sua principal atividade profissional é fazer bolos à noite e vendê-los com café pela manhã na garagem de uma empresa de ônibus. Cobradores e motoristas estão entre seus principais clientes num disputado mercado do desjejum. Volta e meia, ela tem de lidar com a ação repressiva da Guarda Civil Metropolitana.

Moradora da Vila Jaguara desde 2007, na comunidade do Razzo (ocupação do final dos anos 90 na zona oeste da capital paulista), Cátia tem cinco filhos que dividem os 35 metros quadrados de sua casa. Nascida em São Paulo, filha de empregada doméstica, tem cinco filhos e um neto. No final do ano passado, acolheu a melhor amiga e o companheiro dela. Todos recebem Bolsa Família (total de R$ 290,00), que complementa a renda mensal de Cátia de aproximadamente R$ 800.

Com o ensino médio incompleto, Cátia é articulada. Contesta da política de assistência médica à precarização do ensino. Faz críticas à Sabesp pela situação do saneamento básico local e a precária rede de abastecimento de água formada por um emaranhado de mangueiras expostas entre as casas sem acabamento. Seu sonho é conseguir entrar para o Programa Minha Casa Minha Vida. O lixo é depositado na entrada da comunidade, ficando sujeito à sorte da coleta irregular.

Desde meados de 2013, Cátia ganhou novas e graves preocupações. Se as condições ambientais em seu bairro já não eram as recomendadas pela Organização Mundial de Saúde, agora vão piorar.

A empresa Logística Ambiental de São Paulo S/A, mais conhecida como LOGA, com capital aberto no valor de R$ 60.650.000,00, vai instalar uma nova Estação de Transbordo de Lixo na vizinhança de Cátia. Com área de 33 mil metros quadrados, a LOGA pretende dividir com outras três estações o montante de 12,5 mil toneladas de lixo produzido todos os dias. Estação de Transbordo é uma unidade receptora de lixo, cujos caminhões da coleta casa a casa depositam o resíduo para depois ter a destinação final em aterro sanitário através de carretas de alta capacidade.

A LOGA teve uma receita em 2012 de aproximadamente 407 Milhões de Reais oriundos de clientes públicos. Já os clientes privados são irrisórios, segundo o balanço, apenas 123 mil. No ano de 2013, a LOGA recebeu R$ 401.202.713,00 para coleta e destinação final do lixo. Para 2014, os paulistanos desembolsarão quase R$ 20 milhões a mais, conforme orçamento aprovado. A renda mensal média dos moradores da comunidade do Razzo não ultrapassa 1,5 salários mínimos.

No processo de licenciamento da estação, vários aspectos já estão em análise, entre eles estrutura de concreto armado, cobertura, revestimentos e outros detalhes do empreendimento. Há ainda observações sobre rota de helicópteros e a vizinhança industrial. Mas não há nada sobre as 200 famílias no entorno. Documento da LOGA protocolado na Cetesb possui letras frias, como se não houvesse vida no entorno, referindo-se apenas a “área de expansão industrial”. Para o novo Plano Diretor de São Paulo em discussão, a região está inserida no perímetro do “Projeto Arco do Futuro”, inédita iniciativa de aproximar moradia ao emprego.

Na verdade, duas escolas, casas e edifícios residenciais conciliam a vida do bairro com comércio e serviços. Não muito distante dali, os velhos galpões remanescentes da atividade industrial passaram a ser ocupados por condomínios residenciais. A Vila Jaguara é ainda formada por ruas estreitas, lotes pequenos e repleta de praças arborizadas. Com predominância da população idosa, a concepção urbana do bairro é oriunda das vilas operárias do antigo Frigorífico Armour.

Pesam sobre as Estações de Transbordo de Lixo de São Paulo o impacto direto e indireto sobre o ambiente. Na Estação de Transbordo Vergueiro, zona sul da capital, controlada pela empresa Ecourbis, são constantes as reclamações sobre forte odor, proliferação de ratos, pombos, moscas e outros vetores. Há ainda moradores com problemas respiratórios e alergias. A convivência com o fedor faz parte do dia a dia dos moradores há 30 anos.

Nas proximidades da foz do Rio Tamanduateí funciona a Estação de Transbordo Ponte Pequena, recentemente modernizada para reduzir parcela dos impactos. Até meados da década de 90, as Estações de Transbordo em São Paulo incineravam resíduos dos serviços de saúde, cadáveres de animais, e outros dejetos. Após ação do Ministério Público, o serviço foi encerrado em 2002.

Diante do cenário nada animador, Cátia decidiu ampliar sua carga de trabalho. Com o auxílio das redes sociais e no boca a boca, ela organiza a vizinhança para evitar o risco de deterioração ainda maior da qualidade ambiental da comunidade. Recentemente o comissariado da LOGA passou a fazer visitas monitoradas de moradores da comunidade do Razzo à  Estação de Ponte Pequena.

Se tudo caminhar como sempre caminhou, a LOGA despejará ao lado da comunidade de Cátia 2,5 mil toneladas de lixo por dia. Toda essa produção de resíduos vem de regiões com alto poder aquisitivo, como a Vila Nova Leopoldina, City Lapa e Alto dos Pinheiros.

Mas nada disso é novidade. Durante 40 anos, não muito distante dali, o bairro de Perus recebeu quase todo o lixo produzido na capital. Após inúmeros protestos, o lixão de Perus foi desativado. Cátia sabe disso.

A estação de tratamento de lixo da LOGA
A estação de tratamento de lixo da LOGA

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